22 de janeiro de 2012

Liberdade irrestrita. Sem liberdade não existe crescimento. Aqueles que querem restringir a liberdade na internet, alegando a desculpa da pirataria, são aqueles que não conseguem de adaptar aos novos tempos. São aqueles que moldam os seus relacionamentos através do dinheiro e do poder. Observem atentamente aqueles que são a favor do SOPA e do PROTECTIP. Os tempos mudaram e novas mudanças devem reger o mercado.

12 de dezembro de 2011

Texto para Canídia

CREMAO2

Com certeza, as maiorias das bruxas o eram apenas em denominação, manipuladoras com a superstição e com o senso comum. No entanto, todas as mulheres pagaram um preço alto demais por causa dessa “brincadeira”. Sempre, ao longo da História, houve uma resistência feminina ao poder que queria mantê-las submissa. A mulher buscou a sombra e a noite escura, que nada mais é do que o lugar longe do controle cultural, para manter seu foco de resistência.

A fragilidade da psicologia feminina, o que as tornam tão especiais e fruto de tanta admiração, quando violada as levam irremediavelmente à loucura e a toda crueldade que elas conseguem expressar. Portanto, todas as mulheres deveriam cuspir e queimar todos os livros que pregam sua servidão, mas elas são grandes demais para privarem os homens de seus medos.

Portanto, a vida social é o produto da fidelidade do ser humano aos ritos sociais…

A noção de sacrifício e do sofrimento é muito mais do que cultural, é atávico. O motivo primeiro parece ter sido realmente esquecido e o que sobrou foram as superstições. Os sacrifícios e os seus ritos de sangue nada mais são do que o grande medo e o fator do desconhecido que a morte gera. Os ritos de sangue, por sua vez, se iniciam com a descoberta de que se poderia impor à Natureza os desejos humanos.

Assim sendo, resgatar Lilith do Mar Vermelho nada mais é do que aceitar a mulher como ela é. É compreender a Essência do seu Sacrifício. É estar ao seu lado pela vida. É ter nela nossa companheira de viagem pela selva que é o ato de viver. É reconhecer e aceitar que nela convivem a Mãe e a Prostituta.

28 de outubro de 2011

Proêmio Sobre a Criação

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Houve um tempo em que não existia nem céu, nem terra e nada era senão o vazio – também chamado de águas primevas –, sem limites, a mais densa escuridão. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de Nut, algo sem tempo e nem espaço, nem profundidade ou altura, e sua duração superaria qualquer contagem de tempo ou qualquer coisa que possa ser concebida. Apesar de ser vazio, ali existia o cerne de todas as coisas que mais tarde, vieram a existir e que ainda virá existir neste mundo ou neste universo e em todos os outros mundos e universos. Este estado de não manifestação era algo próximo ao Amor, mas não se prendam no que acreditam que possa ser isto, pois está muito além de qualquer compreensão. Nut dormia em seu Amor, mergulhada em si mesma, completa em si mesma.

 

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Por fim, seu Amor gerou um despertar de sua apatia e ela sentiu Vontade de manifestar este Amor. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de Nu, e ela que era toda feminina em essência, se contorceu em espasmos de Amor e se tornou masculino em essência. Seu movimento neste espasmo fez Nu ejacular e assim tudo passou a existir: o tempo e o espaço, as alturas e as profundidades do mundo e do universo. Desse espasmo um universo surgiu após o outro e uma Palavra foi pronunciada até que os seus últimos espasmos ocorressem. E da última gota de sua ejaculação, ao cair sobre as demais que agora haviam formado o oceano do universo, surgiu a Consciência.

 

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Existe, porém um momento entre o nada e o tudo, entre o vazio e a manifestação, um instante zero, entre o menos um e o mais um. Para este Instante ou ponto de mudança que, nada mais é do que um Equilíbrio entre Amor e Vontade, a consciência do homem deu o nome de Maat. Um Instante de suavidade entre morte e espasmo: isto mais tarde seria conhecido por diversos nomes místicos em diversos lugares, os pensadores da Hélade o chamaram de αγάπη.

Da última gota de onde surgiu a Consciência de todas as coisas, surge a primeira manifestação daquilo que um dia viria a ser a alma humana. Para esta condição a consciência do homem deu o nome Hoor-paar-kraat (depois de Amen-Ra). O Silêncio daquilo que contemplou os primeiros momentos da Criação, pois não existe outra Vontade além da Palavra de Nu, o espírito que envolveu tudo depois da criação. Este Silêncio está envolvido por um ovo e assim ele permaneceu e deverá permanecer, brilhando no interior de todas as estrelas. E cada estrela é composta de uma parte desta Palavra, pois cada uma a compreende e a exerce de acordo com tua natureza.

Da emanação do interior deste ovo surgiu Ra, a essência do sol, dentro de cuja forma brilhante estava incluído o poder absoluto do “espírito divino”, a vida. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de: o criador do mundo. E mais tardiamente surgiu o conceito de um deus criador de todas as coisas. Quando estes conceitos foram criados, junto foram construídas as mitologias para tentarem explicar aquilo para o qual não havia explicação. Sabia-se que de Um todos os outros surgiram e a isto foi dado o nome de politeísmo, por aqueles que vieram tardiamente. E nesta expansão, separação ou fragmentação constante do universo, o ser humano tentou reverter o processo e disto surge aquilo que, também, ainda mais tardiamente, foi chamado de monoteísmo.

 

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A Terra foi construída a partir de três elementos fundamentais e tudo que constitui a Natureza é tripla em essência, e isto pode ser contemplado naquela Morada dos deuses. No entanto, o universo continua se fragmentando e a Verdade que um dia podia ter sido uma, não mais foi encontrada. E quanto mais se fragmenta, mais fácil é manipular suas partes, por isso que surgiu o conceito de um opositor à criação. Quando isto ocorreu, eis que surge o conceito de bem e de mau: das luzes e das trevas. Mas como o “deus” sol lunar, adorado desde os tempos pré históricos, estava distante demais das mentes criaram-se outros mitos sendo que Set (o lado obscuro de Osíris) foi escolhido para ser o opositor de Osíris (o ser humano). Pela manipulação desta fragmentação é que Osíris, mais tarde, suplantará Ra, mas mesmo isto foi necessário. E quando isto aconteceu passou-se a ver o sol apenas como um astro menor e a Osíris como uma divindade salvadora, que livraria a humanidade de suas maselas, da sua dor, dos seus pecados e da sua suposta finitude. Assim, o que vimos ao longo do tempo foi que, uns copiaram aquilo que não compreendiam e fragmentaram ainda mais aquilo que já estava sendo perdido.

 

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Agora foi dado conhecer todas estas coisas e assim os “deuses” estão aos poucos retornando para suas moradas de direito. Ao ser humano cabe a sua própria responsabilidade pelas coisas. Aqueles que um dia eram chamados de deuses, mas simplesmente meros irmãos e irmãs, se foram e nos deixaram os fundamentos de uma ciência, uma mera ferramenta entre tantas outras para a compreensão desta fragmentação. Alguns foram aqui deixados, por livre Vontade de escolha, para velarem o sono e o sonho daqueles que olham as trevas (Infinito) e veem apenas azul (Terra) e dourado (Sol). Mas deve agora o Silêncio se abater sobre este pequeno proêmio que foi aqui deixado e escrito sem qualquer pretensão de explicar a criação.

22 de setembro de 2011

Não existe Deus senão o homem

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Curiosamente estamos diante de um paradoxo e todo o paradoxo é em si mesmo engraçado, porque estimula perguntas cujas respostas levam tempo a serem respondidas, isto é, quando elas conseguem ser respondidas. Mas onde quero chegar? Estamos diante de uma nova religião, conhecida por Thelema e ela é, ao lado do Taoísmo e até mesmo do Budismo, uma religião que não possui deus ou qualquer divindade de adoração.

Seria isso possível? Sim. Ela é uma religião além de qualquer adoração divina ou temor a um deus. Mas então, o que seriam aquelas divindades conhecidas como Nuit, Hadit, Ra-hoor-khuit, Hrumachis e tantas outras que surgem em diversos escritos? O que seria a tal Companhia do Céu descrito logo no início do Liber AL vel Legis? Ora, eles são neter, são neteru, uma expressão egípcia antiga que foi erradamente traduzida por deus ou divindades. Na verdade, o termo neter (plural, neteru) quer dizer simplesmente Essência ou Princípio. Assim temos o Princípio ou Essência da guerra, do amor, da fertilidade, da morte, etc. Alguns egiptólogos já trabalham com o conceito de que os antigos egípcios não eram politeístas como aprendemos na escola. A igreja de Roma é politeísta? Afinal, os seus seguidores adoram seus santos quase como se fossem deuses.

Thelema é uma religião de adoração ao ser humano enquanto Essência de algo “divino”. Nem mesmo o nosso Sagrado Anjo Guardião pode ser considerado em algo divino, baseado no conceito de deus. (In)felizmente, para a maioria da humanidade, não existe deus e nem salvação; e eu acredito realmente nisso, é por onde minha experiência e vivência em Thelema acabaram me levando. Sempre quando penso no Anjo Guardião penso em uma passagem do tão deturpado Livro do Apocalípse, mais precisamente no Capítulo 22, Versículo 9 que diz, após João se prostrar aos pés do anjo, pensando em deus: “Não faças isso! Sou um servo, como tu, como teus irmãos, os profetas...”

Quem seria então esse deus que todas as religiões, principalmente as monoteístas, dizem existir? De quem o anjo é servo? Deus é o Princípio da Vontade e até o anjo é servo de sua Verdadeira Vontade. Cada homem e mulher é uma estrela, uma Essência, que é resumida naquilo que é chamado de Verdadeira Vontade. Não existe aqui lugar para deus ou para qualquer noção de restrição (ie, pecado). O Universo ou a Natureza se faz e se expande por causa de sua Verdadeira Vontade, que é algo completamente natural – talvez por isso que a Natureza seja imperfeita, como o ser humano tem descoberto.

O filósofo francês Etienne de La Boétie, em seu “Discurso da Servidão Voluntária” diz que: o homem é menos livre do que um cavalo, por já nasce domesticado. É essa domesticação que emperra o conhecimento e a realização da Verdadeira Vontade em cada ser humano, assim cabe a cada um de nós em não sermos pedras talhadas para um muro uniforme, mas pedras brutas, individuais, com suas próprias características.

Com certeza, existem Consciências superiores à consciência humana e isto é um fato. Mas se perguntássemos a essas Consciências se elas são deuses e se foram elas que criaram tudo o que conhecemos etc. Elas iriam sorrir como um pai, mergulhado em amor, sorri para um filho recém nascido.

Amor é a lei, amor sob vontade.

21 de junho de 2011

Entrevista sobre Thelema – parte II

Sempre quando leio sobre Thelema, fico com a impressão de existe algo ainda mais profundo e que escapa ao “olhar” desavisado. Estaria certo ou isto é só uma sensação? Thelema tem mais coisa por detrás do que o “Faze o que tu queres...”?

Não é apenas uma impressão. Existe muita coisa por detrás de Thelema, mas seria aqui impossível falarmos sobre ela, por ser uma questão delicada e que eu não gosto muito de comentar. Não estou querendo esconder nada de você, mas, por exemplo, falar sobre contatos extra nossa mundo, pode remeter à conceitos comumente mitificados.

Este seu cuidado também está relacionado com a sexualidade?

Não necessariamente. Teorias não levam o estudante a nenhuma realização e nem experiências baseadas em teorias. Na questão da sexualidade é necessário já ser mestre em algumas categorias do yoga, por exemplo, o que a grande maioria ainda nem começou a realizar.

As pessoas no Brasil teem falando muito sobre linhagens mágicas. Fazer parte de uma linhagem é realmente importante?

Realmente eu não acredito na validade de “linhagens mágicas”. Se fosse assim, por exemplo, todos os alunos do Crowley teriam sido grandes iniciados e a história nos prova o contrário. Acredito que você pode começar sem qualquer “linhagem” e ao longo dos anos ir se vinculando a uma. É a sua perseverança, dedicação e aprofundamento na Tradição que o leva a se vincular a uma “linhagem”. Na verdade, acho essa idéia de linhagem terrível, é para mim mais uma questão de vaidade e de curiosidade mórbida do que algo realmente efetivo, importante.

O Sr. pertence a qual “linhagem”?

Inquestionavelmente, a minha descende diretamente de Mestre To Mega Therion. Mas isso é tudo uma grande bobagem!

A que Tradição o Sr. se refere?

A Tradição a que Thelema se baseia. O Grant é o que melhor explicou sobre tal assunto em seus diversos livros.

Foi importante o Sr. falar disso: no início deste ano faleceu o Sr. Kenneth Grant. Sei que o Sr. o tem em grande estima, poderia falar um pouco sobre ele?

Não tenho muito o que falar dele. Nunca o conheci pessoalmente, o máximo que tivemos foram correspondências. Nosso contato se iniciou na década de noventa do século passado, quando o Instituto Aleister Crowley editou em português o Magical Revival. Cartas foram trocadas ao longo desses anos e o que posso dizer é que ele é a pessoa mais importante em Thelema desde o Crowley. Particularmente, eu o considero como o verdadeiro Filho Mágico profetizado no Livro da Lei.

Por que o Sr. diz isso?

Porque ele veio logo depois do Profeta, dando continuidade à Obra de Mestre Therion, além de explicar aquilo que este não teve como fazer. A finalidade de um Filho Mágico é dar prosseguimento ao Trabalho, mantendo-o em uma direção segura. Geralmente, os Filhos Mágicos expõe seus “Pais”: às vezes, até demais. Thelema tem pouco mais de cem anos e já podemos perceber alguma deteriorização de conceitos e de ensinamentos, mas isto é completamente normal, mas nos dias atuais não é mais aceitável.

Mas no que o Sr. se baseia para dizer que ele seria?

Me baseio no Capítulo I, nos Versículos 55 e 56 do Liber AL vel Legis. O Grant não estava nem no oriente e no ocidente, mas na própria Inglaterra e foi sem dúvida o último grande aluno a estar com ele. Mas isto é apenas a minha opinião pessoal e não passo neste momento de um terrível foco de pestilência.

O Sr. se considera o Filho Mágico do Grant, expondo-o ao mundo como aquele profetizado no Livro da Lei?

Esta é uma pergunta tão tola que nem merece resposta.

O que aconteceu com o Instituto Aleister Crowley? Ele ainda existe?

O Instituto Aleister Crowley foi idealizado visando a publicação de livros e no auxílio a grupos de estudos de Thelema. O I.A.C. está com suas atividades restritas, no presente momento.

Outro dia quando li o seu blog sobre o Tarot de Thoth ele me pareceu muito hermético para o público em geral. Qual é o seu objetivo com um blog escrito dessa maneira?

Não tenho muita a intensão de explicar ou de ensinar tarot nesse blog, para isso é que existe uma dezena de outros na internet. Minha intensão é escrever livremente sobre a minha percepção e conhecimento sobre os Arcanos, baseado em minha vivência dentro de Thelema. A grande vantagem dele sobre o Arte & Alquimia é que posso reescrevê-lo quando quiser.

No mesmo blog sobre o Tarot, o Sr. diz que o Aeon de Hórus começou em 1950 e.v., com a queda do Budismo Tibetano. Seria o Budismo Tibetano a grande religião do Aeon de Peixes e não o Cristianismo?

Bem, tecnicamente, o Cristianismo não pode ser considerado uma religião. Uma religião possui um método que leva os seus seguidores ao contato direto com a divindade, através de práticas, apoiadas em uma filosofia verdadeira. Incrivelmente, isto não acontece com o Cristianismo; e ele está muito mais próximo de uma seita do que de uma religião. Não temos como comparar o Cristianismo com o Islamismo, Taoísmo, Hinduísmo, Zoroatrismo...

...O Budismo é uma religião verdadeira, com uma filosofia construída através de uma prática. O Budismo é tão verdadeiro em seus preceitos que é de todas as religiões, no meu modo de ver, a mais racional: convincente, quero dizer. Outro dia lendo a Blavatsky, ela confirmava essa minha observação, dizia ela que o Budismo é a própria Razão.

Curiosamente, quando lemos no Liber AL que a Razão é uma mentira, podemos compreender que este nosso último Livro Sagrado vai de encontro aos conceitos considerados intocáveis do Aeon passado. Infelizmente, estou sendo foco de pestilência, mais uma vez.

Alguns thelemitas dizem que já estamos vivendo no Aeon de Maat e não mais no Aeon de Hórus, isto é certo? O filho mágico do Crowley, Frater Achad, estaria equivocado sobre este assunto? Em sua opinião, o que é o Aeon de Maat?

O Aeon de Maat é um período transitório entre o final de uma antiga Era e o início de uma nova. Em minha opinião, o período de 46 anos entre o recebimento do Livro da Lei, em 1904 e.v., até 1950 e.v., com a invasão do Tibet, demarca este pequeno Aeon de Ajustamento. Tudo o que aconteceu nesse período de tempo demonstra o fim e o início de um ciclo. O Aeon de Hórus tem a sua primeira grande manifestação nos anos sessenta do século passado, com o movimento hippie. Curiosamente, esse movimento se apoiou fortemente contra a guerra do Vietnam e contra qualquer ato que fosse violento.

E o que isso quer significar?

É meio complicado de explicar, mas basicamente que: Aquário, é regido pela guerra (conflitos), e este é o meio que os homens comuns utilizam para evoluírem; e Leão, regido pela vontade, é o meio que os Iniciados evoluem...

O Sr. já foi membro da O.T.O.?

Não. Iniciei minha trajetória em Thelema na Sociedade Novo Aeon, que seguia o sistema da O.T.O. baseado nos “conceitos” do Sr. Marcelo R. Motta e mais tarde na de Frater Aster. No entanto, dentro da S.N.A. tive acesso aos ensinamentos da O.T.O. e ao longo dos anos fui adquirindo muitos dos seus materiais e instruções mais internas. Naquele tempo ainda não tínhamos internet, como nos dias atuais, e se você quisesse ter acesso a documentos e materiais, teria de fazer parte de alguma organização ou pagar para tê-los.

O Sr. conheceu o Sr. Marcelo Motta?

Não. Quando entrei na S.N.A. em setembro de 1992 e.v. ele já havia falecido há alguns anos.

Pode falar sobre o Sr. Euclydes de Almeida?

Ficamos afastados por muitos anos, desde que a Loja Therion, da S.N.A., se desfez, mas nos seus últimos anos de vida, voltamos nos reaproximar. Era uma pessoa de quem eu gostava muito e a quem eu respeitava.

Faz parte atualmente de alguma ordem além da A.’.A.’.?

Sim.

Qual é a maior manipulação, em sua opinião, que o homem cometeu em toda a sua história?

A idéia de deus! É a ilusão da existência de deus que afasta o ser humano. Ora, se deus está do meu lado, se sou o escolhido de deus, eu não preciso de você para coisa alguma. Deus irá me prover de tudo. Só que deus não existe. Nenhuma divindade estará ao nosso lado em toda a nossa caminhada aqui e no além, além do outro. O ser humano não tem a não ser o outro ser humano para suprir suas necessidades.

Aquele a quem chamamos de Ser Espiritual não tem nada de espiritual no sentido religioso que se imagina. Nosso Sagrado Anjo Guardião não é mais espiritual do que cada um de nós. Em verdade, todos nós nos apoiamos uns nos outros, para a evolução de todos. Se cada ser humano compreender que precisa do outro e nos livrarmos dessa idéia doentia de deus e divindades, de salvação, passaremos sim a sermos uma fraternidade aqui, neste pequeno planeta.

Estamos sós e essa solidão só termina quando aceitamos o outro. Como que as pessoas querem ter contatos com seres de outras esferas, tão diferentes de nós, se elas não conseguem sequer aceitar outro ser humano e não tão diferente de nós?

O que fez o Sr. a optar por Thelema? Quando conheceu?

Eu comecei minha trajetória com o Budismo, pela escola Zen, em 1989 e.v. Com o Budismo comecei a meditar e nunca mais parei. O Budismo é ainda um sistema que conheço e que respeito profundamente. No princípio de 1991 e.v. deixei o Budismo e busquei um novo caminho, agora, pela magia, indo cair na Escola de Magia que funcionava na cidade do Rio de Janeiro. Em abril de 1991 e.v., talvez por causa das práticas de Raja Yoga, não sei, tive uma experiência que modificaria toda a minha vida dali em diante: naquele momento começou o meu Refinamento enquanto ser humano.

No entanto, foi em 1992 e.v. que li Liber OZ e este panfleto caiu sobre mim como uma pedra, definitiva. Percebi que tudo que estava fazendo estava equivocado. Procurei um conhecido da Escola e ele me deu para ler as Oito Lições de Yoga escrito pelo Crowley, no Magia em Teoria e Prática, e minhas experiências e impressões [e natureza] se coadunaram com aquilo que estava tendo acesso. A péssima impressão que tinham feito do Crowley se dissipou instantaneamente.

O que li sobre a A.’.A.’. mudou minha vida e pude compreender a experiência do ano anterior, tinha encontrado o caminho de casa e foi na busca por Ela que acabei conhecendo a Sociedade Novo Aeon. Thelema me mostrou um outro Caminho, onde desrespeitar a minha Natureza é a mais pura restrição.

Mas o que está por detrás de Thelema?

Bem, já que voltamos a pergunta inicial, Thelema nos prepara para uma nova realidade, para novos encontros ditos “espirituais”. E estes encontros transformarão radicalmente a psique humana.

 

Resumo da entrevista realizada

por Urbino Costa com Sérgio Bronze

em 28 de abril de 2011 e.v.

6 de dezembro de 2010

Entrevista sobre Thelema

Estágio espiritual, elevação, superstição, religião... O que é Thelema? Como e quando tomou conhecimento sobre Aleister Crowley e a Lei Thelema? Para o senhor, o que é a Verdadeira Vontade?

Tecnicamente Thelema é uma religião a partir do pressuposto de que todo o ensinamento que ela trás em si leva o homem a se fundir no Divino. Como a palavra religião (religare = religar) quer dizer, Thelema tem a capacidade de fazer com que cada homem e mulher por si próprios, possam ter a possibilidade de religar a consciência microcósmica na macrocósmica. É uma religião considerada de revelação, desde que possui uma série de Livros considerados Sagrados, Inspirados, e um principal, o Liber AL vel Legis, que é a coluna central de toda a filosofia thelêmica.
 
O objetivo de Thelema é levar o ocidente de volta às suas raízes espirituais, perdidas desde a queda das civilizações Sumer-acadiana e Egípcia, e de períodos ainda mais tardios, que remontaria ao período neolítico da evolução humana. Como toda religião ela possui um sistema esotérico e exotérico.
 
O sistema esotérico de Thelema se resume basicamente naquilo que é conhecido por Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, a nossa Essência mais Pura. Este Conhecimento e Conversação são conhecidos por a Grande Obra, na terminologia alquímica. Da mesma maneira que no budismo o objetivo é atingir o Nirvana (Felicidade Suprema), no taoísmo o objetivo é o Tao (Caminho), em Thelema o objetivo é atingir Nuit, a Noite, o Nada, o Caos Primordial, que não é nada diferente do Nirvana e nem do Tao. As três religiões buscam o mesmo Princípio, mas através de métodos diferentes, baseando-se na Natureza, isto é, na individualidade de seus adeptos.
 
Exotericamente, o objetivo de Thelema é levar o ser humano a um progresso espiritual dentro de bases científicas, pois temos de admitir que aquilo que há cinquenta anos atrás era considerado como algo metafísico, hoje em dia é respondido em bases científicas, vide o sistema de Chakras hindu e suas relações com o sistema endócrino do corpo humano, etc. Outro objetivo é criar uma sociedade de homens e mulheres realmente livres de toda e qualquer noção de pecado, da falsa noção de altruísmo, da obsessão pelo medo e pelo sofrimento; e, consequentemente, livrar o mundo ocidental da grande aberração que é a idéia de um Salvador.
 
Thelema não é apenas mais uma nova religião, é uma nova filosofia, calcada em uma nova ética comportamental. Todos os grandes movimentos culturais e sociais ocorridos no século XX e pelos próximos séculos, terão como base a influência direta de Thelema, quer admitamos ou não.
 
Meu primeiro contato com Thelema foi em julho 1992 e.v. através de um pequeno texto conhecido por Liber OZ, que é a Carta de Direitos do Ser Humano, lançado por Aleister Crowley em 1945 e.v. Apesar de parecer um texto óbvio em uma primeira leitura, seu conteúdo é de uma extrema profundidade. Quanto ao Crowley já havia ouvido falar sobre ele anteriormente, mas até então nunca tinha lido nada que ele houvesse escrito.
 
O ponto central de Thelema é a Verdadeira Vontade. “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei”, o seu bordão mais importante, é o resumo de toda a filosofia. Todos nós, seres humanos, nascemos com um Objetivo, que é a nossa Verdadeira Vontade. No entanto, ao nascermos, existe um rompimento em nossa Consciência o que provoca nosso esquecimento do motivo pelo qual nascemos. É através do Sagrado Anjo Guardião (o Tu, de “Faze o que tu queres”) que nós voltamos a rememorar tal Objetivo ou Verdadeira Vontade (a Lei, de “há de ser tudo da Lei”). A Verdadeira Vontade é basicamente única para todas as encarnações.
 
A continuação deste bordão é: “Amor é a lei, amor sob vontade”. Infelizmente terei de ser muito superficial mais uma vez, mas posso dizer que todo ato de amor deve ser direcionado. Se eu exerço plenamente minha Verdadeira Vontade, o faço primeiramente porque me amo e só depois é que posso vir amar a outros. Esta frase está diretamente ligada ao processo de Iluminação, porque amor aqui se refere ao Samadhi (Êxtase Supremo) e a plena realização da Vontade gera Samadhi, mas todo Êxtase deve ter um objetivo específico.
 
Consequentemente, o homem ou a mulher no livre ato da realização da tua Verdadeira Vontade, atinge o mesmo nível de Consciência do Sagrado Anjo Guardião. É complexo explicar aqui como ocorre esta união da Consciência Humana com a Consciência, chamada, Divina, mas todo e qualquer ser humano na plena realização da Verdadeira Vontade, se torna em um deus encarnado. Não existe limite para a sua Consciência, ele não precisa ter vivido ou lido alguma coisa para saber sobre esta coisa, sua mente, devidamente treinada ao longo dos anos, toma posse de todas as informações pertinentes para a plena realização da tua Vontade, quando isto ocorre não existe mais tempo ou espaço, mas isto já é um outro assunto.
 
O senhor é membro de alguma ordem? Qual? Há quanto tempo?
Sim. Faço parte da Santíssima Fraternidade da Estrela de Prata, conhecida secretamente por S.’.S.’. ou A.’.A.’.. Pertenço a Ela por toda minha vida, mas “oficialmente” há 18 anos.
 
Qual a finalidade dos rituais e práticas thelemicas?

O objetivo de todo e qualquer ritual e prática, não apenas thelêmica, é levar o praticante a estados alterados de consciência. O objetivo primeiro é atingir ao Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, pois sem Ele tudo é muito mais complicado. A segunda etapa é destruir a própria mente, mas este destruir nada mais é do que ter o pleno domínio sobre a mente, sobre o Ego. A terceira etapa é conseguir manter, toda vez que se torne necessário, a Consciência mergulhada na Consciência Divina, e isto é se tornar em deus.
 
Adagas, robes, altares, são necessários ou apenas cenários?

No início do treinamento todos os apetrechos externos são necessários para levar a mente a um frenesi mágico. Servem como estímulos aos sentidos, mas com o passar do tempo o praticante deverá compreender que todos esses apetrechos estão dentro de si mesmo. Eles não são nada mais do que símbolos internos. Consequentemente, ele abandona todos os rituais externos e mergulha cada vez mais para dentro de si.
 
O que acha do comércio de aparatos “místicos”?

Nada contra. Cada ser humano se encontra em um estágio particular de sua evolução. Existem pessoas que precisam de algo externo para poder sentir algo interno. Na verdade, ao longo da história humana, sempre se comercializou o sagrado. Percebe-se que algumas pessoas precisam demonstrar para outras que elas estão de posse do sagrado, nem que para isso precisem comprar o sagrado. Não é porque se comercializa algo que se está profanando o que é realmente sagrado.
 
Atualmente, na internet, se ve pessoas tatuando a imagem do Crowley no corpo, isto quer dizer apenas que ele se tornou em uma figura cult e não que as suas obras deixaram de ser extremamente importantes para a humanidade.
 
As pessoas compram símbolos. Elas adoram símbolos. Elas respondem símbolos através de outros símbolos. A grande maioria precisa mesmo viver na superficialidade simbólica, porque isto é tudo que elas conseguem atingir. Suas mentes não conseguem ir além, é o mesmo que querer dizer que uma pessoa que gosta de um tipo de música é “inferior” a uma outra, mas tudo é uma questão de até onde a mente dela consegue tocar. Inteligência nada tem haver com isso. Inteligência independe da estrutura mental, mas não sei explicar isso fora do nível espiritual.
 
Crowley afirmava que a humanidade está entrando em uma nova Era, o que seria esta nova era?
Basicamente a humanidade passou por três Eras bem distintas e vou ter de ser bem sucinto:
 
A primeira Era ou Aeon, foi chamada de Era Isíaca ou de Ísis, no período neolítico da humanidade onde temos o advento do culto à Grande Mãe, onde a mulher era o centro da comunidade... Este período matriarcal era caracterizado pela noção de que a divindade estava fora do ser humano, na natureza em geral, mas que este ser humano não era a divindade. A divindade era o vulcão, as tempestades, as árvores, os rios... E pelo fato do ser humano não compreender a natureza ele a via como algo divino e ao mesmo tempo temia a natureza, ele não se via parte do todo. O exemplo mais óbvio disso era o fato de que se acreditava que a mulher se auto engendrava para ter uma criança e se ela conseguia fazer isso ela era vista como uma deusa. É óbvio que se tem muito mais coisa por detrás disso, mas que não cabe aqui relatar.
 
A religião predominante neste período histórico foi a feitiçaria, com os seus encantamentos e estes tinham o intuito de apaziguar a natureza. O culto era lunar, da feitiçaria lunar... Coisa que hoje em dia algumas pessoas tentam copiar, sem conhecer profundamente o que estão fazendo.
 
A segunda Era foi chamada de Período Osiriano, de culto ao sol, foi o período patriarcal, onde o homem passa a ser o centro da sociedade. Este período se caracterizava pela construção de grandes templos dedicado ao Sol, ao Pai, ao deus macho... As construções representavam que a divindade estava dentro do ser humano, mas que este ser humano não era a divindade. Apesar da maioria dos templos terem dimensões do corpo humano, representando que o Espírito divino habitava o ser humano, mas este humano, bestial como sempre foi não podia e nem tinha como ser a divindade.
 
Neste período histórico temos a evolução da magia como a transformadora da natureza. A magia tinha de fazer manifestações materiais. O ser humano passa a dominar a natureza, passa a querer conhecer a divindade na natureza, daí que da magia surgem todas as ciências que conhecemos até os dias atuais.
 
Chegamos agora, então no Aeon de Hórus, o Filho, o andrógino. O Novo Aeon se caracteriza pelo conceito de que a divindade está dentro do ser humano e que o ser humano por isso mesmo é a própria divindade encarnada. “Não existe deus senão o homem.” Esta máxima do Liber AL vel Legis tenta explicar que o máximo que conseguiremos saber o que é ser divino é conhecermos profundamente a nós mesmos e este é um processo de grandes riscos.
 
O Aeon do Filho se caracteriza pela união da magia com as suas filhas, as ciências. É um retorno aos princípios humanos, ao respeito à natureza, porque agora conhecemos muitos dos seus mistérios e nos identificamos com estes mistérios. Não precisamos utilizar nem a feitiçaria e nem a magia para domesticar ou dominar, mas utilizamos a nova Magia(k) para nos integrarmos com a natureza do qual somos uma parte essencial.
 
As consequências desta atual Era, são imprevisíveis. Estamos apenas no seu início, mas já podemos ter uma pequena noção do que irá desenrolar. O movimento hippie na década de sessenta do último século foi a primeira grande manifestação visível do Novo Aeon. A androginia, por exemplo, que é algo visível nas novas gerações; a busca por um planeta e um sistema de vida mais saudável é um outro exemplo. Com a morte de toda noção anterior sobre deus, o ser humano olha ao seu redor e se vê “sozinho” no Universo, mas devemos compreender que nós só podemos contar com aquele outro ser humano que está ao nosso lado.
 
A Era é regida por Aquário e Leão, sem entrarmos em Astrologia, direi apenas que Aquário representa os iguais vivendo lado a lado e que por causa do Leão, não perdemos a nossa individualidade. Na minha comunidade não sou um número e muito menos uma estatística, sou respeitado pelo meu nome e por aquilo que sou. Vivo ao lado dos meus iguais e não em um meio estranho à minha natureza, pois como dizia William Blake: “A mesma lei para o leão e o touro é opressão”. Vivo ao lado de quem quero viver e sem me anular como individualidade por causa disso.
 
Desde o início dos tempos a humanidade busca respostas na metafísica para a existência. Seria thelema, assim como outras religiões e filosofias, mais uma tentativa de encontrar respostas?
Não. As respostas já foram encontradas, se praticarmos verdadeiramente o taoísmo, o hinduísmo ou o budismo, por exemplo, teremos a solução para as três perguntas básicas que sempre impulsionaram a raça humana: de onde vim? Quem sou? Para onde vou?
 
Devemos entender que Thelema trás em sua essência o resumo de todas as outras religiões, devido ao fato de ser a última religião revelada. Ela trás a essência do Tao, do Budismo, do Hinduísmo, do Zoroatrismo, dos cultos de feitiçaria, dos cultos egípcios e sumerianos, dos cultos drávicos, etc., etc. Mas na verdade ela revela um outro método para uma outra categoria de Iniciados. Até o advento de Thelema, nós utilizávamos de métodos de outros Iniciados que pouco tinham haver com a nossa natureza.
 
Por exemplo, no que se refere a sexualidade: no taoísmo, eles dizem: “feche as portas do corpo e transcenda tudo pacificamente”; no hinduísmo, eles dizem: “controle as portas do corpo e elas serão esquecidas”; mas eu como um thelemita, digo: “conheça e use as portas do teu corpo e terás domínio sobre elas”. A questão é como se interpreta e se pratica sobre o mesmo assunto. O objetivo final é sempre o mesmo, ter o domínio sobre as portas do corpo.
 
O que poderia dizer a respeito da associação de Crowley ao Satanismo. Mito, folclore, ou a associação tem algum fundo de verdade? A Besta 666, o pior homem do mundo, Mago Negro. O que tais nomes significam para o senhor?
Crowley nunca esteve envolvido com satanismo, até mesmo porque ele nunca acreditou em deus da maneira como os cristãos e judeus acreditam. Os demônios são parte de nós mesmos, que teem de serem evocados para que possamos conhecê-los e nos apaziguar com eles. Para se ter uma idéia, que pode ajudar nesta questão, o diabo na Idade Média é o mesmo que a psicologia e a psiquiatria chamam de Ego. Se o objetivo da Iniciação é dominarmos o Ego, então precisamos conhecê-lo para dominarmos.
 
O Nome Mágico mais importante assumido por Crowley foi Mestre To Mega Therion 666, Nome Mágico assumido por ele para ser o Profeta do Novo Aeon e que quer dizer: A Grande Besta 666 ou O Grande Filho do Sol Oculto. Ora, todos nós somos bestas comparados ao Sagrado Anjo Guardião, que para muitos seria como deus ou como o próprio Cristo. O Crowley brinca com a nossa imaginação, ele não queria qualquer um ao lado dele. Ele queria os melhores da raça humana, porque são estes que fazem a evolução do mundo. Muitos dos títulos pejorativos que os homens deram a ele, ele se utilizava para selecionar os seus alunos, mas com certeza ele nunca foi um mago negro, senão nunca teria deixado obras tão importantes para a humanidade. Mestre Therion está colocado entre os sete maiores Mestres que a humanidade já conheceu e ninguém diz, por exemplo, que Mestre Lao Tsu é “o pior homem do mundo”.
 
Crowley se sentia muitas vezes um perfeito idiota, um bobo, ele se sentia sozinho perante a enorme tarefa que ele tinha pela frente. Como uma besta, ele era conduzido pelo seu Anjo Guardião (e por alguns outros Mestres Ocultos, também) na realização da sua Verdadeira Vontade, que não era nem mais e nem menos do que o estabelecimento de uma Nova Época para a raça humana.
 
O que acha da influência de Aleister em obras de autores consagrados como Aldous Huxley? Nas artes, na música (Jimmy Page, Beatles, Raul Seixas, etc)? A influência exercida por Crowley vem da pessoa que ele foi ou da filosofia thelemica?
Claro que a parte mais visível é o próprio Crowley, mas para quem segue Thelema como norte de vida, o Crowley é apenas mais um Irmão que veio e que fez o que tinha de fazer. O importante é o que está por detrás da Lei. Em grande parte, o culto ao Crowley se deve pela noção “superficial” que as pessoas teem da personalidade do Crowley, um homem envolvido com drogas, sexo e magia. Alguém que pregava a Liberdade e que fazia uso “indiscriminado” das drogas e do sexo, mas esta é apenas uma visão mitificada e as pessoas adoram mitos.
 
No entanto, sabemos que é Thelema que influencia como dito mais acima, as artes, a sociedade, pensamentos filosóficos, etc., por mais que não se conheça sobre Thelema. Não podemos negar que todo o planeta está sobre a vibração da essência apregoada por Thelema e isto é um fato.
 
O Crowley pode ser cult, mas Thelema é a Liberdade, o Amor, a Vida e a Luz por detrás de tudo.
 
Existe alguma diferença no uso dos ensinamentos de Crowley nos movimentos feitos por Led Zeppelin, Beatles e no que foi feito por Raul Seixas?

Eles apenas esbarraram como não poderia ser diferente, na superficialidade dos ensinamentos do Crowley. No lado exotérico de Thelema.
 
Nem Led Zeppelin e nem os Beatles fizeram qualquer movimento em Thelema. Raul Seixas, sim, estava mais engajado pela sua aproximação com o Sr. Marcelo Ramos Motta e com o Sr. Euclydes Lacerda de Almeida. Apesar de ter sido um dos que mais propagou abertamente a Lei de Thelema, mesmo assim apenas resvalou no que é verdadeiramente Thelema, porque nunca foi um Iniciado propriamente dito.
 
Jovens gostam de rebeldia e Thelema é perfeita para os jovens rebeldes, por falar em liberdade extrema e em sexo livre. Só que liberdade gera responsabilidade, gera consciência nos atos.
 
Paulo Coelho e Raul Seixas ficaram famosos através de thelema ou usaram sua fama para divulgarem a filosofia de Crowley?
Sim. Com certeza as duas coisas aconteceram.
 
Paulo Coelho usou até quando lhe foi conveniente, se bem que ainda se utiliza do pensamento thelêmico dentro de uma roupagem vendável e cristã. Raul Seixas realmente era mais sério e tentou divulgar e expandir através da Sociedade Alternativa que seria uma comunidade no estilo hippie tendo por detrás a Sociedade Novo Aeon como uma organização mágica thelêmica, baseada no sistema da O.T.O. (Ordo Templi Orientis, uma ordem de estilo maçônica da qual Crowley foi um dos líderes).
 
Como o senhor vê a influência de Crowley na humanidade?
Bem, se não tivesse sido o Crowley, teria sido um outro ocidental qualquer. Mas o Crowley foi essencial, pelo tipo de homem que ele era. Um homem de extrema inteligência, coragem e muito além do seu tempo a nível comportamental. A Inglaterra era o centro do mundo, de onde novas idéias e tecnologias surgiam. Como se disse uma vez no século XIX: a Inglaterra era o Yod do mundo. Isto quer dizer que ela era o fogo que iluminava as mentes...
 
Devemos compreender que quando ele viveu, tinha ao seu lado uma gama de gênios em todas as áreas humanas poucas vezes visto na história humana. Tínhamos Hubble na astrofísica, Einstein na física; Poicaré na matemática; Chaplin na nova arte que era o cinema; Isadora Duncan na nova dança moderna; Nobel e um russo que agora me falha a memória, na química; Fernando Pessoa na poesia; Artaud no teatro; pintores diversos que revolucionaram e tantos outros que a memória se recusa a lembrar.
 
O Crowley é de extrema importância pela sua vasta obra que engloba diversos assuntos. Ele resgatou cultos esquecidos pela humanidade ocidental, tentou aproximar religião e ciência, nos deu um método científico para as práticas espirituais, o que nos leva a testar e a não aceitar qualquer experiência mística que não tenha uma comprovação cabível. Nos tirou do misticismo e nos deu a verdadeira magia, que ele escrevia com a letra K (Magick) para diferenciar da magia de manifestação e de necromântica medieval. Ele não queria que nós seguíssemos seus passos, mas que nós fizéssemos os nossos, por isso ele nunca se colocou como guru e brincava com aqueles que o viam como tal.
 
Talvez, em minha opinião, o seu grande mérito foi nunca ter uma postura de homem santo, por mais que ele fosse. Ele se colocava como um homem comum, por mais que ele fosse Mestre. Ele era a antítese do que se pode imaginar de um Mestre ou de um Iluminado. Assim ele nos ensinou que se pode atingir os mais altos cumes da Iluminação, da Iniciação e continuar sendo um homem com desejos comuns e necessidades comuns, que essa não é a barreira, mas o que nos torna realmente Iluminados.
 
Sobre as prescrições médicas de Crowley e consequentemente, seu vício, o que acha do uso de alucinógenos em rituais?
Desde o período pré histórico que o ser humano se utiliza de alucinógenos para conseguir estados alterados de consciência e assim conversar mais demoradamente e profundamente com os espíritos. Sempre se usou drogas e todo mundo um dia já usou ou ainda irá usar.
 
As drogas em rituais são devidamente controladas e não provocam vício se o praticante estiver devidamente treinado. Eu mesmo sou um exemplo disso, nunca me viciei em qualquer tipo de droga lícita ou ilícita, muito pelo contrário me recuso a utilizá-los sem necessidade. O Crowley utilizou praticamente todas as drogas conhecidas em seu tempo e as analisou magicamente, iniciaticamente, sabendo até onde uma poderia levá-lo e até onde outra o levaria. E nos deixou uma obra muito importante para qualquer iniciado que queira explorar recantos inexplorados da mente.
 
Antes de qualquer estudante se utilizar de drogas, ele é treinado rigorosamente ao extremo. As drogas estão em uma etapa final e nunca inicial, e elas nos auxiliam na abertura de portais extremamente complexos de serem abertos normalmente. Uma pessoa senhora de sua Verdadeira Vontade não se vicia, porque não existe espaço em sua mente para tão grande prisão. A Vontade é Liberdade e Liberdade não se coaduna com escravidão, e o Liber AL vel Legis é taxativo nesta questão. As drogas e o sexo são extremamente utilizados para abertura desses portais.
 
Devemos dizer que muitas obras importantes da humanidade foram realizadas sob o efeito de algum tipo de droga. Não vou citar casos clássicos, mas posso falar de belas canções que foram feitas por músicos sob efeito direto de drogas...
 
Era comum na época utilizar cocaína para crises de asma. Apesar de nunca te-lo conhecido pessoalmente e por isso mesmo não posso afirmar categoricamente, mas acredito que pelo homem que ele era, mesmo com fraquezas e virtudes pertinentes a qualquer um, que ele tinha realmente graves crises de asma e não porque fosse definitivamente viciado em cocaína.
 
Uma coisa curiosa que acontece quando se abrem portais normalmente fechados ao ser humano e como a maioria do processo de entrada nesses portais é através da respiração, uma parte dos Iniciados desenvolvem problemas no sistema respiratório que com o tempo tende a se agravar, eu mesmo possuo períodos críticos em que tenho grandes dificuldades em respirar. Crowley excedeu porque esta é a nossa meta e eu poderia citar alguns outros que também tiveram problema respiratório e que nunca se recuperaram como Jacob Boehme, Adam Weinshaut, Allan Bennett e até o próprio Elifas Levy.
 
Maçonaria, Rosa Cruz, Illuminati. A A.’.A.’. também se tornou uma ordem “pop”? Ou ainda continua oculta?

Hoje em dia tudo se torna pop. Não vou falar aqui do que sei sobre as outras organizações, prefiro me ater à Santíssima Fraternidade da A.’.A.’. Percebo que as pessoas acham que a A.’.A.’. é apenas mais um ordem, uma organização como outra qualquer: que se entra e que se sai ao bel prazer. Estão enganados!
 
Ela é uma Fraternidade oculta porque Ela é totalmente espiritual no conceito mais estrito da palavra. Não se pode tentar explicar para quem não a conhece por dentro como Ela funciona de verdade. Não existem palavras para expressar a Sua grandeza. Ela é composta por três grandes Escolas de Iniciação – a Escola Amarela representada pelo Taoísmo; a Escola Negra representada basicamente pelo Budismo, Hinduísmo, Jainismo...; e a Escola Branca representada por Thelema e por algumas escolas tântricas da “mão esquerda” – que teem como objetivo primal a de zelar pela evolução espiritual do nosso planeta. Sem interferir demasiadamente nas escolhas humanas, mas se manifestando toda vez que se torna necessário dar novos rumos, um desses períodos foi visto durante o século XVI quando dos Manifestos Rosa Cruzes; antes, temos os Cavaleiros da Ordem do Templo de Cristo de Jerusalém, etc.
 
Sim. Ela é uma Fraternidade oculta! Para se ter uma idéia cada Escola é dividida em três grandes Colégios e só se é Membro da Santíssima Fraternidade da A.’.A.’. aquela mulher ou homem que atingir o Colégio mais secreto da sua Escola.
Não somos nós quem escolhe fazer parte Dela, é Ela quem nos convida a fazer parte.
 
Ao longo da história humana Ela se manifestou por diversos nomes, como os acima citados, mas nunca nenhum homem ou mulher, Membro da Fraternidade, desvelaria o seu verdadeiro Nome. Conhecer o Nome é conhecer a Essência.

Entrevista realizada por
Claudia Araújo com Sérgio Bronze
em 2010 e.v.

2 de dezembro de 2010

Ilusão Iluminada

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Ó Mara, não fiz de ti minha inimiga, não fiz de nós uma luxúria, nem uma guerra sem vencedores e nem tampouco uma avareza de intenções. Tu não és uma inimiga indesejável, pois até em ti existe uma companheira: aquela a quem toco em suavidade. É por tua causa que minha cumbuca está cheia de comida e que posso me dar ao luxo de me aquietar…

Assim, sento sob esta árvore no centro do palácio de meu pai, contemplando o universo em movimento do qual me desapeguei. Eu sentava e o universo se movia, de tanto se mover ele parou e quando ele parou percebi que tu eras bela. Nunca foi minha intenção criar um mundo perfeito: tolice. Também não abandonei nada, apenas morri e eles disseram que eu era iluminado. Por tua causa voltei à vida e o que seria de tudo sem tua presença?

Ó Mara, não fiz de ti minha inimiga, somos amantes e amigos. Trilhamos por caminhos diferentes, paralelos, mas eu posso te tocar quando quiser: quando minha Solidão for insuportável. Fui e voltei por tua causa. Fui e voltei por causa da vontade de amar. Voltei e não estava mais preso apenas aos teus lábios.

29 de novembro de 2010

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Eu te adoro em nosso templo secreto e bebo de ti a minha própria vida vermelha, grossa, vital...

Como é terrível te amar!

Como é abominável pertencer apenas a ti!

Ó, como sou feliz em ti!

Ninguém pode imaginar como posso te amar, sem dor e sem prazer. Tu és a suavidade do campo de batalha e a sanguinária no leito dos amantes. Sou duplo e sou um, mas sempre por ti.

Te amar é conhecer a morte. Teu sexo é minha morte: vida. Posso ter tudo em ti e mesmo assim não quero nada.

De todas as tuas filhas amadas e desejadas, amo e desejo mesmo é a ti.

7 de outubro de 2010

Sou o Teu dançarino
Tu és o meu palco
Fixado em Ti como a flecha no alvo

Livre de toda realização
Assim Tu podes Te mover
Para dentro e para fora de mim

Sentado e enterrado
Mergulhado neste mar de golfinhos
Estamos duplamente nascidos

Eternos...

Libertos de todo nascimento e morte
Tudo que escuto é Tua voz
Tudo que sou é o Teu dom

Prazer...

Vida e morte
O grande e o pequeno
Tudo está sob Tua Vontade

Estou só em Ti e isto basta
Tu és o meio
Sou o princípio e o fim

Meu corpo é a minha oferta
Tua Sabedoria, minha meta
Tua Vontade, minha seta

Por Ti destruo o sonho
O conhecimento
E todas as oferendas.

19 de setembro de 2010

A verdade, assim como o Caminho espiritual, é individual. Não é porque um homem santo e sábio, e de renome, diz sua verdade que esta deva servir para mim. Não acredito em nenhuma verdade que não seja a encontrada por mim mesmo, e isto é minha Luz.

Leio textos taoístas, budistas e hindús, e enxergo nelas grandes verdades. Leio textos clássicos e textos de homens comuns, e vejo neles grandes verdades. No entanto, são verdades de outros, porque são o Caminho de outros, mas o meu Caminho deve ser feito pelo meu esforço, pela Verdade do meu Entendimento, pela minha Verdadeira Vontade. Levei anos até conseguir aceitar o próprio Mestre Therion como um possível Mestre. O meu Instrutor, Meu Amado, sempre deixou que as escolhas fossem minhas e nunca, nunca, disse que eu estava certo ou errado, isto aprendi por mim mesmo: Ele apenas observa e faz pequenas correções, pois não existe ninguém que me conheça melhor do que Ele mesmo. Curiosamente, isto nada tem haver com livre arbítrio. Eu não sou livre para fazer o que eu quiser, estou eternamente atado à TUA Vontade e isto é a minha Verdade e minha Liberdade.

Sou exatamente aquilo que devo ser, não sou nem melhor e nem pior do que qualquer outro homem santo ou sábio que já tenha ou que ainda virá a pisar este planeta. Sou a Estrela (Essência) mais perfeita e única do que posso ser, seguindo a minha órbita, minha Vida pré destinada.

As pessoas vivem repetindo e realizando as verdades de outras e quase nunca encontram as suas próprias. O Caminho espiritual está cheio de fracassos porque se quer sempre atingir aquilo que outros dizem ter atingido, pelos métodos deles. Devemos seguir nossa Natureza e fazer isto é estar irremediavelmente sozinho e no mais completo silêncio. Hoje compreendo o que Ele quis me dizer em 1995 e.v. quando disse que o meu destino era ficar só. Sim, estou só! Mas erguido em minha própria montanha, minha cabeça coroada aos Céus, meus pés tocando as Terras dos homens e minhas mãos acariciando meu pequeno jardim. Infelizmente ou felizmente, ainda, não tenho uma idéia precisa, não tenho como escapar desta solidão ou deste silêncio, mas compreendo que isto tudo me faz ser um ser humano um pouco melhor.

Ontem uma cliente me dizia que o Amor para ela era a aceitação do outro e não a compreensão do outro. Divergimos sobre esta questão durante horas, até que compreendi que eu a amava profundamente e todas as divergências cessaram. Posso não aceitar a verdade do outro, mas devo aceitar a verdade do outro como sendo a sua própria verdade. Assim, todas as divergências cessam e podemos finalmente caminhar pelo nosso Caminho. Esta é minha maneira de Amar...

Algumas vezes tenho o desejo de gritar alto, mas isto seria uma tolice, no final das contas, depois de ter escrito tudo o que escrevi acima. Se assim o fizesse, minha verdade seria uma mentira e isso é tudo o que ela não é.

Sérgio Bronze – Diário pessoal

24 de junho de 2010

Aqui todo esforço da terra é em vão e o meu todo está espalhado pelo chão como poeira. Aqui todo esforço está aprisionado e as fórmulas dos nomes nada significam. Compreendo que aqui deus está morto.

Liber LXXXI