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LIBER AMORE vel Thelema Sapiens Est

 

Introdução

Vez em quando testes são executados em alguns Adeptos, com a intenção de saber se estes estarão algum dia aptos a serem o que se exigem deles. Outras vezes, para mostrar que eles não são assim tão virtuosos quanto acreditam que são. Quando o Mestre do Templo é assim impelido a fazer, geralmente o resultado não é dos mais favoráveis. Assim sendo, esta encíclica não foi escrita para eles.

Devo confessar ao mundo que o meu Destino passa pelo estabelecimento de Thelema enquanto uma Religião. Meu dever vai além de qualquer idéia de que algo será sempre correto ou não, e nem isso me interessa verdadeiramente. No entanto, todo meu esforço é no sentido de mostrar de maneira correta as bases como ela pode vir a ser uma Religião para todos os homens. Por isso, não consigo ser diferente ou escrever em outra linguagem senão a religiosa.

Confesso também que todo Amor é Egoísta por sua estrita Natureza. O Amor em todos os planos e em toda planificação tem como objetivo restringir toda e qualquer ação. Nessa restrição máxima descobrimos o que é a Liberdade. Portanto, veja que o tolo se esforça em atingir o elevado, mas que somente após sua queda pode ele realmente atingir o que era esperado. Na restrição máxima de nossa Liberdade podemos enfim realizar plenamente a nossa Vontade.

Esta encíclica, ou livro como preferirem, intercala a manifestação do Amor sob Vontade, assim como duas pessoas que se encontram ao acaso e se apaixonam, e resolvem viver juntas para sempre. Portanto, o destino de uma passa a caminhar em harmonia com a da outra: em total Liberdade, em Amor verdadeiro, gerando Vida sob a verdadeira Luz. Pois é da Natureza do coração do homem buscar a sua completa plenitude em seu semelhante. Obviamente, toda Vontade é um ato de Amor.

(…)

 

Parte II

 

Sobre a besta e o amor

 

0. O escaravelho alado solar era no antigo Egito a representação do que atualmente chamamos de Sagrado Anjo Guardião. O mundo ou o universo era representado pela bola de esterco que o escaravelho rolava pelas areias do deserto e que cujo calor ajudava a chocar os seus ovos. Nós, enquanto seres bestiais que somos, éramos representados pelas larvas que germinavam de dentro do esterco. Devemos estar atentos à enorme quantidade de simbolismos que se escondem por detrás de uma simples imagem.

1. O homem sempre quis esconder de si mesmo a sua condição animal e para isso se refugiou na razão e no intelecto. Pior do que isso, ele criou “belas histórias” para se convencer de que tinha deixado para trás essa condição, como se for animal fosse algo ruim. Entre as tantas histórias, surgiu aquela que dava a ele um consolo perante algo que ele desconhecia e que era a sua própria morte. A morte era encarada como algo nefasto que interrompia a vida, um estado de prazeres e de riquezas que ele acreditava ser algo divino. Criou a idéia da ressurreição e a manipulou para o seu próprio proveito.

2. Nessa ilusão havia o personagem teatral de um tal filho de deus – um tal criador do céu e da terra - que teria vindo à terra para redimir os homens de seus pecados e do pecado original. Pela imagem inicial todos os homens poderiam se salvar, mas com a manipulação da história, só aqueles que fossem submissos à fé é que teriam a chance da ressurreição. Mesmo nessa história havia a imagem de uma besta anunciadora, na figura de uma pomba branca, a pomba que representava o Espírito Santo.

3. Se os grandes profetas são sempre filhos ou, ao menos, anunciados por uma besta ou relacionados com uma, isto é para nos lembrar que cada homem possui uma particularidade com um determinado simbolismo animal. Isto pode muito bem ser apreciado nas divindades egípcias, com cabeça de animal e corpo humano. Nestas representações a inteligência, representada pela cabeça, possuía determinadas qualidades que se reflete em animais específicos; enquanto que seus corpos eram humanos, simbolizando a manifestação na terra de tais qualidades.

4. Algumas dessas imagens que podemos ver ao longo de toda a história retratam simbolicamente o estado natural e divino do homem. Porém, a primeira forma ou imagem que se tem notícia sobre a descrição do homem enquanto ser bestial é a imagem de Bes, uma figura que retrata um homem deformado na forma de um anão com a língua exposta. Esta imagem nada glamourosa do homem, o mostra em sua forma bestial, deformada diante da natureza e da perfeição do universo.

5. Devemos compreender que as peças do quebra cabeça devem ser montadas para que possamos compreender o motivo pelas quais tantas histórias e lendas foram criadas ao longo dos séculos. O escaravelho choca os seus ovos rolando-os pela areia quente do deserto, até que os ovos ali colocados eclodam. Do interior do esterco surge Bes, que na medida em que vai evoluindo espiritualmente, passa a ser representado por uma forma divina específica, de acordo com a sua natureza.

6. O lado bestial do homem pode ser visto nitidamente apos o ato sexual onde todos os homens agem como qualquer outro animal apos ter ejaculado. Todo o interesse pela fêmea termina, se ela não for capaz de continuar estimulando-o. Ela por sua vez tudo que deseja é se sentir protegida sob os dentes do macho, sem ter de se preocupar com os predadores. O instinto permanece e permanecerá enquanto a besta não for totalmente extinta dentro dele. Mas é errado isto que ainda prevalece? Ora, isto faz parte do instinto da besta. Este é um motivo importante para a compreensão da natureza dos deuses: o que diferencia o macho da fêmea.

7. Nuit através de sua mão chamada Babalon, se esforça em acariciar a Besta. Desse carinho resulta o aprimoramento dele em todas as áreas. Sua mão é o fogo que arde no coração de todos os homens, é a chama que desce sobre nossas cabeças e que ilumina nossos corações. Sua mão é o nosso Êxtase e nem sempre é delicada, mas é sempre justa e amorosa. Mas mais adiante exporemos mais claramente o peso que recai sobre nossos ombros e que nos curva, nos fazendo lentos, mas constantes. Esse fogo que é precipitado sobre nós, arde em nossa mão também e por ela que expomos a nossa Vontade. Cada manifestação de Luz é uma manifestação do Tempo que se torna ainda mais infinito.

8. Para o amarelo foi dado conhecer a ilusão; para o negro foi ensinado a devoção; para o branco foi desenvolvido a inteligência. Para aquele que se tornou transparente foi dado a ele conhecer todas as estas coisas em perfeita Harmonia para que ele pudesse agora ensinar.

9. Mas mesmo na imperfeição de Bes havia perfeição. Mesmo na limitação de Asar havia perfeição. O karma não toca a quem não sabe mover o universo, por isso os homens, por sorte, não conseguem ter ou ser aquilo que gostariam. Três forças são necessárias para que o karma possa ser acionado e elas estão restritas pelo dharma. No entanto, quando tudo isso é acionado por alguns ato animal extremo, consequências imprevisíveis são postas em movimento. E todos acreditam no movimento, mas seria preferível que nada fosse tocado. É preferível que uma guerra ocorra do que um insano bestial seja colocado em ação.

10. A Sabedoria aconselha que seja Hadit quem venha escolher o seu animal, seu totem.

11. No entanto, o amor não segue uma linha evolutiva, onde possamos saber o que vem depois. O amor é sempre uma surpresa, ela sempre nos reserva algo novo, um sentimento novo, uma experiência nova. Por isso muitos se decepcionam ou temem o amor. Assim como o amor, que dilacera algo que parece ser físico; o amor dilacera os enormes grilhões que aprisionam a alma. Em ambos os casos, sempre acreditamos que nunca nos livraremos de tamanha dor, pois é da natureza bestial acreditar sempre na sua morte.

12. A Grande Besta era uma piada sobre nós mesmos. Uma maneira alegre de dizer que somos eternamente ignorantes sobre o Amor e que o verdadeiro ato de amar é se restringindo à nossa Vontade. Assim, todos podemos brincar sob esse belo dia de sol, em infinitos campos verdes do céu azul mais profundo, ouvindo o canto de coloridos pássaros. Pois quanto maior é a manifestação de um sinal, mais preparados devemos estar para compreendermos Aquela que nos toca. Sim, tudo é uma piada, muito bem contada em que se leva algum tempo para conseguir entende-la. Eu, pela minha autoridade, digo que devemos estar sempre excitados em nossos corações por tudo aquilo que pode vir a nos tocar. Não importa onde estejamos ou o que estejamos fazendo, devemos sempre estar excitados: deixando sempre o rio romper com a represa. Ao rompimento, façamos paralelos.

13. Se algum ato animal não surte efeito é por causa daquilo que expusemos acima. Mas para que um ato animal surta efeito ele deve ser realizado ao contrario com as intenções inversas ao desejado. Pelo descaso os atos acontecem, uma vez que todo animal necessita dominar seu harém. Esse controle doentio sobre aquilo que não o pertence impede a liberdade de suas fêmeas e elas não conseguem gerar crias sadias e livres dos costumes. Mas isto sempre trás em seu bojo um grande perigo, pois uma vez livre, a fêmea e a sua cria, elas podem ser verdadeiramente livres e nunca mais voltarem a obedecer ao seu macho. No entanto, todos os atos da vida possuem um perigo intrínseco e esse é um preço que sempre deveremos estar prontos a pagar.

14. Mas o coração morreu por causa do amor. A razão morreu por causa da Vontade. Assim nada mais restou de concreto, nada mais limita, nada mais se entristece, mas excita: a excitação leva ao Êxtase por diversos amores e, na verdade, esses amores são apenas um só. Esses amores pertencem a um só amor, sem diferença, sem separação, sem posse, sem beleza, mas excitante. Esse amor só pode ser experimentado por uma besta, só pode ser praticado por uma besta. Não importa sua idade, ele ama compulsivamente, ama mais e melhor do que qualquer garanhão solto no campo, porque essa besta é completa e não dividida entre amor e amor. Ele não duvida que todas as fêmeas sejam iguais, mas ele busca aquela que seja submissa ao Prazer. Ele busca a melhor da espécie, ao contrario do garanhão que busca apenas se reproduzir.

15. Então Bes se viu refletido ali como em um espelho, nas águas do Nilo. Corria leite e estrelas cintilavam no fundo do leito e elas era como bilhões de olhos observando a ele. Ele via rochas pontiagudas lá no fundo, mas mesmo assim ele mergulhou contra elas. Qual não foi sua surpresa quando percebeu a maciez daquelas rochas, da água amparando seu corpo branco, da sensação de flutuar. Seu numero era o numero do homem. Sua casa era aquela dos muros azuis e jardins suspensos.

16. Mas Bes sabe que o amor é um veículo de limitação, quer seja por sua natureza primeira, quer seja por uma questão de dharma. Expor o dharma é explicar conceitos físicos conhecidos. Cada ato de amor gera ainda mais amor, mas quando ele cessa por exaustão o mundo ao redor parece ficar atônito por algum tempo, como um pugilista que cai desfalecido no ringue por alguns instantes. Mas logo em seguida o pugilista se ergue e se diz pronto para lutar outra vez, assim o mundo reage. Ele vai de encontro a Bes e quer destruí-lo por ter tido seu “amor próprio” ofendido. Bes aceita os golpes, ele não revida até que o próprio mundo, cuja consciência é pequena, esquece do motivo pelo qual o agride. Assim, mais uma vez, pode Bes sentir ainda mais amor e isso continua até que nem mesmo Bes exista mais. Contra homens alucinados não discutimos, apenas concordamos…

17. É da condição do amor a observação de todas as coisas ao redor e a compreensão precisa das diferenças de um mesmo sinal. Símbolos variam e eles não servem para serem tatuados ao corpo, mas os sinais são imutáveis para aquele que os observa. Uma pessoa pode ver em uma borboleta um sinal de perdição, mas eu posso ver ali um sinal de amor. Outros veriam nela uma mulher, enquanto que posso ver a potencialidade do ser. Enquanto um símbolo não se tornar um sinal não se é capaz de compreender o amor em toda sua plenitude. Assim, quando estou diante as lâminas do Tarot, por exemplo, eu não vejo ali símbolos, mas sinais. A Alma evolui através da Psique. A evolução acontece do choque entre as verdades do Ego e a realidade ao nosso redor. Portanto, enquanto muitos se utilizam de símbolos que para eles nada significam, nós devemos compreender os sinais que é a mão de Nuit sobre nós.

18. Nós amamos os mortos e o fundo. Os mortos: o máximo que conseguirão é Sair à Luz. Do fundo: é a certeza da subida. Os vivos hão de morrer e o alto há de cair. No entanto, para os que estão em permanência, é melhor a dúvida do que a certeza. Todas as crises são: a divisão de Nuit e a possibilidade de se ir ou de ficar, mas todos são chamados, e nem todos observam isso como um sinal.

(…)

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