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OS PERIGOS DO MISTICISMO

 

por

Aleister Crowley

 

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Afetuosamente dedicado a Arthur E. Waite.

 

Uma idéia curiosa está sendo continuamente disseminada e parece estar ganhando terreno: que o misticismo é o Caminho “seguro” ao Altíssimo, e a magia o perigoso Caminho ao baixíssimo.

Existem vários comentários a fazer sobre esta assertação. Podemos duvidar que qualquer coisa que valha a pena fazer esteja livre de perigo; e podemos perguntar que perigo ameaça o homem cujo propósito é a sua própria completa ruína. Podemos também sorrir, um pouco amargamente, da honestidade desses que tentam incluir toda a Magia sob o título de magia negra, como é o truque presente do Místico Militante aqui na Terra.

Ora, como alguém que pode protestar alguma familiaridade com a literatura de ambos os caminhos, e que foi honrado por exposição pessoal por parte de adeptos de ambos os caminhos, eu creio que posso fazer uma comparação imparcial entre os dois.

Esta é a teoria mágica: a primeira variação do Infinito deve ser equilibrada, e desta forma corrigida. Assim, o “grande magista”, Mayan, o fazedor de ilusões, o Criador, deve ser enfrentado em combate. Então, “se Satã estiver dividido contra Satã, como pode o seu reino perdurar?” Ambos desaparecem: a ilusão cessa. Matematicamente 1+(-1)=0. E este caminho é simbolizado no Tarot sob a figura do Magus, a carta 1, a primeira variação do Zero; mas é referida a Beth, 2, Mercúrio, o deus da Sabedoria, Magia e Verdade.

E este Magus do Tarot tem o aspecto duplo do Magista, ele próprio, e do “grande magista” descrito em Liber 418.

Agora, a fórmula do místico é muito mais simples. Matematicamente, é 1-1=0. Ele é como um grão de sal lançado ao mar; o processo de dissolução é obviamente mais fácil que o choque de mundos tencionado pelo magista. “Aquieta-te, sinta-te como um grão de pó, como nada” - esta é a inteiramente suficiente simplicidade do método dele. Infelizmente, muita gente não pode fazer isto. E quando você se queixa da sua inabilidade, o místico é bem capaz de encolher os ombros e por você de lado.

Este caminho é simbolizado pelo Louco do Tarot, que ao mesmo tempo é o Místico e o Infinito.

Mas à parte isto, absolutamente, não é certo que a fórmula seja tão simples quanto parece. Como se assegurará o místico de que “Deus” é realmente “Deus” e não algum demônio mascarando-se em Sua imagem? Nós vemos Gerson sacrificando Huss ao seu “Deus”; vemos um moderno jornalista, que tem feito mais que brincar com misticismo, escrevendo: “Esta vida mística, em sua forma mais elevada, é inegavelmente egoísta”; nós vemos outro escrevendo como a velhota que finalizou sua crítica do Universo dizendo: “Só eu e fulana seremos salvas - e eu não tenho muita certeza a respeito de fulana”; nós vemos uma senhora mística que, aos noventa e nove anos de idade, espuma e vocifera por causa de uma pretensa quebra de seus pretensos direitos autorais; nós vemos outro “mahatma” tão sensível que a menção do nome do presente escritor induz nele um ataque de mania epilética. Se tais pessoas estão realmente “absortas em Deus” - o que é Deus?

Nos é dito na Epístola aos Gálatas que os frutos do Espírito são paz, amor, alegria, tolerância, gentileza, bondade, fé, meiguice, temperança; e em outro lugar, nos é dito: “Pelos seus frutos os conhecereis”.

Devemos então concluir que as pessoas mencionadas acima ou estão mentindo, e nunca atingiram União alguma, ou se uniram ao diabo.

Tais são os “Irmãos do Caminho da Esquerda”, descritos tão completamente em Liber 418.

Destes, o sinal mais característico é o seu exclusivismo. “Nós somos os verdadeiros.” “O nosso é o único Caminho.” “Todos os budistas são malvados” - a insanidade de orgulho espiritual.

O magista não está tão propenso a cair neste temível atoleiro de orgulho quanto o místico; ele está ocupado com coisas exteriores a si mesmo e pode corrigir o seu orgulho. De fato, ele está constantemente sendo corrigido pela Natureza. Ele, o Grande, não pode correr uma milha em quatro minutos! O místico é solitário e fechado; falta-lhe combate saudável. Nós somos todos meninos de escola, e o campo de futebol é uma profilaxia perfeita para as cabeças inchadas. Quando o místico encontra um obstáculo, ele “faz de conta”. Ele diz o obstáculo “é apenas ilusão”. Ele tem a sensação do bem estar do viciado em morfina, as ilusões patológicas da vítima de paralisia genérica. Ele perde o poder de encarar os fatos; ele se alimenta de sua própria imaginação; ele se convence a si mesmo de sua consecução. Se o contradizem no assunto, ele se torna emburrado e despeitado e vingativo. Se eu critico o Sr. X, ele grita e tenta causar-me dano pelas costas; se eu digo que Madame Y não é exatamente Santa Tereza, ela escreve um livro para provar que ela é.

Tais pessoas, “ ‘cheias de vento’, e a névoa fedorenta que inspiram, apodrecem por dentro e espalham um contágio imundo”, como escreveu Milton, de um grupo menos perigoso de guias espirituais.

Para seus infelizes seguidores e imitadores, todas as palavras de comiseração não bastam. O Universo inteiro é para eles apenas “o espelho de suas tolas faces”; porém, ao contrário de Sir Palamedes, eles admiram a imagem. Narcisos morais e espirituais, eles perecem nas águas da ilusão. Um amigo meu, um advogado em Nápoles, contou-me estranhos casos de onde tal auto-adoração acaba.

E a sutileza do diabo é mostrada particularmente nos métodos pelos quais tais neófitos são agadunhados pelos Irmãos Negros. Existe uma veneração exagerada; uma untuosidade de tom, uma pomposidade vaidosa, um uso de linguajar arcaico, um falso véu de santidade sobre o relicário impuro. Pedantismo se mascara com dignidade; uma colcha de retalhos de medievalismo ou orientalismo se faz passar por profundidade e tradição; gíria técnica passa por erudição; letra morta e fetichismo supersticioso se acumulam nas pregas da saia do presumido, do melindroso, do completo fariseu.

Corolário disto é a completa falta de virtude humana. O maior dos magistas, quando age em sua capacidade de homem, age como um homem deveria agir. Em particular, ele aprendeu bondade e simpatia. Altruísmo é, frequentemente, o propósito ultimal dele. Precisamente isto falta no místico. Tentando absorver os planos mais baixos nos mais altos, ele descuida dos mais baixos, um erro que nenhum magista poderia cometer.

A freira Gertrude, quando chegava a sua vez de lavar os pratos, costumava explicar que sentia muito, mas que naquele momento exato ela estava se casando, com completo coro celestial e cerimônia, com o Salvador.

Centenas de místicos se fecham por completo e para sempre. Não só fica a sua capacidade de produzir riqueza perdida, para a sociedade, mas também o seu amor e a sua boa-vontade; e pior de tudo, o seu exemplo e o seu preceito. Cristo, no auge de sua carreira, achou tempo para lavar os pés dos discípulos; qualquer Mestre que não faz isto sobre todos os planos é um Irmão Negro. Os hindus não honram qualquer homem que se torne “Sannyasi” (aproximadamente o mesmo que nosso “eremita”) a não ser que ele tenha primeiramente cumprido por completo todos os seus deveres como macho e cidadão. O celibato é imoral, e o celibato evita uma das maiores provas do Caminho.

Cuidado com esses que evitam as dificuldades menos elevadas: é muito provável que eles evitarão também as dificuldades mais altas.

Dos perigos especiais do Caminho, não temos aqui espaço para escrever; cada estudante encontra a cada passo tentações refletindo suas fraquezas especiais e peculiares. Eu tratei, portanto apenas dos perigos inseparáveis do Caminho mesmo; perigos inerentes nele. Nem por um instante eu pedirei ao mais fraco, que seja, que retroceda ou se afaste daquele Caminho, mas pedirei ao mais forte que aplique estes corretivos: primeiro, a atitude cética ou científica, tanto em perspectiva quanto em método; segundo, uma vida sadia, significando por estas palavras aquilo que o atleta e o desbravador significam; terceiro, companheirismo humano: devoção à vida, ao trabalho, ao dever.

Que ele se lembre de que uma grama de honesto orgulho é melhor que uma tonelada de humildade falsa, se bem que uma grama de verdadeira humildade vale uma grama de honesto orgulho; homem que trabalha não tem tempo para uma coisa ou outra. E que ele conserve em mente a descrição da Lei dada por Cristo: “ama a Deus acima de todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo”.

 

Amor é a lei, amor sob vontade.

P.S.: Este texto dedico a todos os mestres e gurus…

Comentários

  1. senhor Bronze, parabénsss. é sempre bom ler textos como esse.

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