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A Serpente, a Pomba e o Dragão

por

Frater A.A.A.N.

 

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

 

Existe a serpente e a pomba, e é da Natureza da serpente devorar a pomba e é da Natureza da pomba precipitar a serpente à terra. Em algumas tradições a serpente recebe asas de maneira natural como alusão a sua capacidade de se locomover pelo tempo. Então, primeiramente, falemos da Natureza de cada uma – da serpente e da pomba – para depois dissertarmos sobre a Natureza que as une.

A serpente é o lento arrastar do homem pela vida e este arrastar o leva a conhecer a terra. O conhecimento da terra deveria levá-lo a entender os pormenores e do entendimento surge a sabedoria, inexoravelmente. Aparentemente, e só aparentemente, o homem e a serpente são opostos, é pela cegueira de um e a frieza do outro que eles podem ser vistos em oposição. Mas é pela boca do homem que o veneno é inoculado na terra.

Viajando pelo sul da terra, o deserto inóspito e infértil, o homem-serpente é representado por um simples risco no chão, uma linha viva que demarca a fronteira entre a realidade abstrata e imaginação real. A serpente representa o início e o fim. Só uma parte do homem é que pode ser percebida da terra e essa parte é sempre a maldade, pois a maldade é sempre o que é mais óbvio. O óbvio é o princípio da manifestação e, consequentemente, não passa de ilusão.

Quando a serpente mergulha na terra, em alguma greta, e desaparece, ela parte do finito ao infinito; parte da manifestação, para mundos de não manifestação. Assim, ela desaparece do mundo. Ela que nunca foi vista como uma faceta do mundo espiritual e do sagrado, mas como uma aberração da não beleza, pode em sua abertura escura, ejacular seu veneno cadavérico e engolir o sol. Que aberração é esta, perguntariam vocês, que vai de encontro a tudo o que acreditamos ser bom? Mas respondo que a serpente não é de uma única Natureza, ela é noturna pela sua completa cegueira, pois desde o início ela recusa os sentidos que para o homem são importantes. Mas seus olhos cegos não se prendem mais a ilusão, ela pode sentir mais e além do que geralmente se consegue perceber.

Ela se arrasta pelo deserto escaldante, buscando por vida, por isso muitos povos mais cultos a comparavam com a vida. Ela, enquanto a guardião do veneno dá e toma a vida; enquanto aquela que se enrosca ao redor do eixo do mundo, é quem nos faz despertar para a vida. Ela foi comparada por isso, ao demônio e a todas as coisas infernais. Mas ela é quem carrega o mundo em seu ventre; é ela quem devora e expele a Barca Solar de Ra, com o consentimento de Sut. Por isso é que ela é chamada de grande “deus” das trevas, uma representação do Grande Demônio: a Noite.

A Noite é aquela que tem a capacidade de se auto devorar e de se auto gerar. Não é a toa que é a noite que o nosso corpo físico busca por sua purificação, através do agravamento de males.

A serpente é o mesmo que o dragão, mas com as asas da pomba; com as plumas, i.e., com as penas da pomba, ela representa o cosmos – a ordenação. Sua descida no oriente marca a origem divina, o princípio. Ao nascer de um novo dia, sua lágrima e/ou seu veneno é recolhido como gotas de orvalho. Assim, ela permanece na manifestação do dia como um alerta da existência do caos – um mundo além da ordenação do mundo manifestável. Ela é o caminho entre duas realidades completamente opostas e complementares.

Que ela seja a iniciadora do homem e a contradição do homem, sua incoerência. Que ela seja a maldade nos olhos do homem. Que ela seja ela própria em todo seu esplendor. Mas que nunca seja vista como uma inimiga, porém como uma força que equilibra a confusão humana.

Foi dito que ela representava a adivinhação, os dons proféticos e oraculares da humanidade. Pois a serpente sempre inspirou medo e curiosidade, como os oráculos despertam comumente nas pessoas. Mas é no desconhecido que todos os homens terão de mergulhar, por mais elevado que se possa ser. O desconhecido é o lar do medo, pois o homem teme aquilo que ele se tornou e não aquilo que ele é. É o medo de abandonar aquilo que se conhece por aquilo que ele sempre soube.

O lar da serpente é um mundo sem forma, sem cor, sem som... E, no entanto, nele se encontra o princípio de todas essas coisas. A serpente é o senhor da mulher e a Bíblia nos ensina isto, mesmo que seu ato venha condenar o homem a vagar eternamente na terra. É claro que existe um mistério nestas linhas que cabe a cada um desvelar por si só, para que se possa compreender o motivo que levou a serpente a ser condenada por muitos.

Ela se arrasta pela terra, assim como o homem se arrasta pela vida, cego, na busca de sua felicidade. O homem não vê a realidade das rosas – a felicidade – por causa de sua cegueira, apesar de pressentir que a mesma se encontra próxima dele. O homem busca a imortalidade, luta contra sua velhice, nem que tenha de injetar em si mesmo veneno. Mas a serpente é a justiça, como Dante Alighieri nos mostra em sua Divina Comédia, no Canto XXV, porque devemos compreender quem é o ladrão. Somos nós quem rouba de nós mesmos a felicidade.

A pomba é a nossa agilidade, nossa precisão, além de ser nossa pureza e nossa simplicidade. Ela é o refinamento humano e pode ser representada pela estrela invertida que se precipita em direção a terra. Porque ela é a mensageira das Estrelas, sendo ela mesma uma estrela. “Cada homem e cada mulher é uma estrela”, AL, I, 3, um espírito santo. Assim, quando algum mortal olhar uma pomba, que ele possa perceber que ali se encontra a esperança e o equilíbrio.

Ela é símbolo da cultura, pois tolo é o mortal que separa as coisas. É da tendência dos mortais compreenderem apenas aquilo que eles fazem, deixando de lado aquilo que para eles possa parecer estranho.

Para aquele que trás em seu peito a estrela, i.e., a pomba, todas as coisas estão unidas em uma única essência. Por isso somos chamados de pagãos, pois valorizamos a pureza, o amor e a vontade. A pomba representa nossa alma em sua descida vertiginosa em direção a terra, enquanto que a serpente representava a subida lenta da alma em direção ao espírito. Quando ela, a pomba, é projetada em direção a taça do fogo divino, a fonte da memória, ela é a alma em sua plena consciência. Isto quer dizer que não importa mais quanto tempo se tenha de viver, aqui ou acolá, nunca mais beberemos da taça do esquecimento das encarnações.

Presenciamos a morte do homem e o nascimento de deus. Mas a pomba nos perturba com seu arrulho, como uma voz intermitente em nossa alma, exigindo que façamos apenas isto e nada mais. Em Cântico dos Cânticos o rei Sol-Om-On (Salomão) – o Sol por detrás do Sol, o Sol Negro ou o Sol da Meia Noite –, celebra o amor pela sua mulher, assim como a alma que se aproxima da luz. Ao mergulhar em sua caverna celestial, a serpente acaba por descobrir a luz e ao ser iluminada por ela a serpente se torna em uma pomba. E o sábio rei chama sua amada de: minha alma.

Sim, enquanto pomba somos ingênuos, quase poéticos, pois conhecemos o que é o amor, a doçura de não ser ter mais livre arbítrio. Podemos representá-la como uma fênix e seu nascimento se deu na primavera. Ela chocou seu ovo durante o inverno tenebroso e escuro. Algumas vezes a pomba é comparada ao falcão. Então, por que ela ser considerada uma ave de mau agouro? Por trazer as profecias da serpente?

Então a serpente veste suas asas e ela pode ser vista como um dragão voando entre o céu e a terra. Pois ele é o guardião do Jardim das Hespérides e o guardião da Pérola da Imortalidade. Mas quem o vê o acha terrível, demoníaco. Os tolos tentaram em vão subjugar o dragão em imagens e lendas, mas eles são ignorantes para a luz diante os olhos deles.

O dragão é um ser ambivalente, por ser a força e o vigor do verbo divino. Ora, o nome do dragão é o nome de deus, pois é o fogo divino contido no interior de todos os homens e que os homens procuram manter apagado com a água de seu ego. Ele só é o dragão porque conseguiu beber da água da imortalidade e essa água é como veneno que mata o ego e vivifica o espírito. Os imortais montam nele e o dirigem ao céu e a terra, na realização plena da Verdadeira Vontade.

Pela falta de livre arbítrio, o dragão se torna no símbolo do Imperador, dos Imortais, e ele se torna na chuva que cai sobre o deserto. Sua face é a face dos Imortais. Sua dança trás esperança até para os cantos mais tenebrosos da terra. Nosso dragão veio da constelação de Virgem – ordenação – e era a estrela Arcturo[1] e abriu uma nova porta para a humanidade. Veio para nos mostrar que nosso ego é uma tendência regressiva na direção de nossa evolução.

Mas o homem mortal pode ver o dragão, ou o nosso dragão, como parte das legiões infernais e nós não os culpamos por pensarem assim. Pois é da intenção do dragão destruir a humanidade, para que do escombro da civilização possa se erguer homens deuses. Esses homens deuses estão eles todos reunidos na cauda do pavão, cujos pés horrendos estão fixados na terra infernal.

 

Amor é a lei, amor sob vontade.


[1] Significa: os cornos do dragão. Esta estrela é mil vezes maior do que o sol que ilumina nosso sistema solar.

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