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Entrevista sobre Thelema

Estágio espiritual, elevação, superstição, religião... O que é Thelema? Como e quando tomou conhecimento sobre Aleister Crowley e a Lei Thelema? Para o senhor, o que é a Verdadeira Vontade?

Tecnicamente Thelema é uma religião a partir do pressuposto de que todo o ensinamento que ela trás em si leva o homem a se fundir no Divino. Como a palavra religião (religare = religar) quer dizer, Thelema tem a capacidade de fazer com que cada homem e mulher por si próprios, possam ter a possibilidade de religar a consciência microcósmica na macrocósmica. É uma religião considerada de revelação, desde que possui uma série de Livros considerados Sagrados, Inspirados, e um principal, o Liber AL vel Legis, que é a coluna central de toda a filosofia thelêmica.
 
O objetivo de Thelema é levar o ocidente de volta às suas raízes espirituais, perdidas desde a queda das civilizações Sumer-acadiana e Egípcia, e de períodos ainda mais tardios, que remontaria ao período neolítico da evolução humana. Como toda religião ela possui um sistema esotérico e exotérico.
 
O sistema esotérico de Thelema se resume basicamente naquilo que é conhecido por Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, a nossa Essência mais Pura. Este Conhecimento e Conversação são conhecidos por a Grande Obra, na terminologia alquímica. Da mesma maneira que no budismo o objetivo é atingir o Nirvana (Felicidade Suprema), no taoísmo o objetivo é o Tao (Caminho), em Thelema o objetivo é atingir Nuit, a Noite, o Nada, o Caos Primordial, que não é nada diferente do Nirvana e nem do Tao. As três religiões buscam o mesmo Princípio, mas através de métodos diferentes, baseando-se na Natureza, isto é, na individualidade de seus adeptos.
 
Exotericamente, o objetivo de Thelema é levar o ser humano a um progresso espiritual dentro de bases científicas, pois temos de admitir que aquilo que há cinquenta anos atrás era considerado como algo metafísico, hoje em dia é respondido em bases científicas, vide o sistema de Chakras hindu e suas relações com o sistema endócrino do corpo humano, etc. Outro objetivo é criar uma sociedade de homens e mulheres realmente livres de toda e qualquer noção de pecado, da falsa noção de altruísmo, da obsessão pelo medo e pelo sofrimento; e, consequentemente, livrar o mundo ocidental da grande aberração que é a idéia de um Salvador.
 
Thelema não é apenas mais uma nova religião, é uma nova filosofia, calcada em uma nova ética comportamental. Todos os grandes movimentos culturais e sociais ocorridos no século XX e pelos próximos séculos, terão como base a influência direta de Thelema, quer admitamos ou não.
 
Meu primeiro contato com Thelema foi em julho 1992 e.v. através de um pequeno texto conhecido por Liber OZ, que é a Carta de Direitos do Ser Humano, lançado por Aleister Crowley em 1945 e.v. Apesar de parecer um texto óbvio em uma primeira leitura, seu conteúdo é de uma extrema profundidade. Quanto ao Crowley já havia ouvido falar sobre ele anteriormente, mas até então nunca tinha lido nada que ele houvesse escrito.
 
O ponto central de Thelema é a Verdadeira Vontade. “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei”, o seu bordão mais importante, é o resumo de toda a filosofia. Todos nós, seres humanos, nascemos com um Objetivo, que é a nossa Verdadeira Vontade. No entanto, ao nascermos, existe um rompimento em nossa Consciência o que provoca nosso esquecimento do motivo pelo qual nascemos. É através do Sagrado Anjo Guardião (o Tu, de “Faze o que tu queres”) que nós voltamos a rememorar tal Objetivo ou Verdadeira Vontade (a Lei, de “há de ser tudo da Lei”). A Verdadeira Vontade é basicamente única para todas as encarnações.
 
A continuação deste bordão é: “Amor é a lei, amor sob vontade”. Infelizmente terei de ser muito superficial mais uma vez, mas posso dizer que todo ato de amor deve ser direcionado. Se eu exerço plenamente minha Verdadeira Vontade, o faço primeiramente porque me amo e só depois é que posso vir amar a outros. Esta frase está diretamente ligada ao processo de Iluminação, porque amor aqui se refere ao Samadhi (Êxtase Supremo) e a plena realização da Vontade gera Samadhi, mas todo Êxtase deve ter um objetivo específico.
 
Consequentemente, o homem ou a mulher no livre ato da realização da tua Verdadeira Vontade, atinge o mesmo nível de Consciência do Sagrado Anjo Guardião. É complexo explicar aqui como ocorre esta união da Consciência Humana com a Consciência, chamada, Divina, mas todo e qualquer ser humano na plena realização da Verdadeira Vontade, se torna em um deus encarnado. Não existe limite para a sua Consciência, ele não precisa ter vivido ou lido alguma coisa para saber sobre esta coisa, sua mente, devidamente treinada ao longo dos anos, toma posse de todas as informações pertinentes para a plena realização da tua Vontade, quando isto ocorre não existe mais tempo ou espaço, mas isto já é um outro assunto.
 
O senhor é membro de alguma ordem? Qual? Há quanto tempo?
Sim. Faço parte da Santíssima Fraternidade da Estrela de Prata, conhecida secretamente por S.’.S.’. ou A.’.A.’.. Pertenço a Ela por toda minha vida, mas “oficialmente” há 18 anos.
 
Qual a finalidade dos rituais e práticas thelemicas?

O objetivo de todo e qualquer ritual e prática, não apenas thelêmica, é levar o praticante a estados alterados de consciência. O objetivo primeiro é atingir ao Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião, pois sem Ele tudo é muito mais complicado. A segunda etapa é destruir a própria mente, mas este destruir nada mais é do que ter o pleno domínio sobre a mente, sobre o Ego. A terceira etapa é conseguir manter, toda vez que se torne necessário, a Consciência mergulhada na Consciência Divina, e isto é se tornar em deus.
 
Adagas, robes, altares, são necessários ou apenas cenários?

No início do treinamento todos os apetrechos externos são necessários para levar a mente a um frenesi mágico. Servem como estímulos aos sentidos, mas com o passar do tempo o praticante deverá compreender que todos esses apetrechos estão dentro de si mesmo. Eles não são nada mais do que símbolos internos. Consequentemente, ele abandona todos os rituais externos e mergulha cada vez mais para dentro de si.
 
O que acha do comércio de aparatos “místicos”?

Nada contra. Cada ser humano se encontra em um estágio particular de sua evolução. Existem pessoas que precisam de algo externo para poder sentir algo interno. Na verdade, ao longo da história humana, sempre se comercializou o sagrado. Percebe-se que algumas pessoas precisam demonstrar para outras que elas estão de posse do sagrado, nem que para isso precisem comprar o sagrado. Não é porque se comercializa algo que se está profanando o que é realmente sagrado.
 
Atualmente, na internet, se ve pessoas tatuando a imagem do Crowley no corpo, isto quer dizer apenas que ele se tornou em uma figura cult e não que as suas obras deixaram de ser extremamente importantes para a humanidade.
 
As pessoas compram símbolos. Elas adoram símbolos. Elas respondem símbolos através de outros símbolos. A grande maioria precisa mesmo viver na superficialidade simbólica, porque isto é tudo que elas conseguem atingir. Suas mentes não conseguem ir além, é o mesmo que querer dizer que uma pessoa que gosta de um tipo de música é “inferior” a uma outra, mas tudo é uma questão de até onde a mente dela consegue tocar. Inteligência nada tem haver com isso. Inteligência independe da estrutura mental, mas não sei explicar isso fora do nível espiritual.
 
Crowley afirmava que a humanidade está entrando em uma nova Era, o que seria esta nova era?
Basicamente a humanidade passou por três Eras bem distintas e vou ter de ser bem sucinto:
 
A primeira Era ou Aeon, foi chamada de Era Isíaca ou de Ísis, no período neolítico da humanidade onde temos o advento do culto à Grande Mãe, onde a mulher era o centro da comunidade... Este período matriarcal era caracterizado pela noção de que a divindade estava fora do ser humano, na natureza em geral, mas que este ser humano não era a divindade. A divindade era o vulcão, as tempestades, as árvores, os rios... E pelo fato do ser humano não compreender a natureza ele a via como algo divino e ao mesmo tempo temia a natureza, ele não se via parte do todo. O exemplo mais óbvio disso era o fato de que se acreditava que a mulher se auto engendrava para ter uma criança e se ela conseguia fazer isso ela era vista como uma deusa. É óbvio que se tem muito mais coisa por detrás disso, mas que não cabe aqui relatar.
 
A religião predominante neste período histórico foi a feitiçaria, com os seus encantamentos e estes tinham o intuito de apaziguar a natureza. O culto era lunar, da feitiçaria lunar... Coisa que hoje em dia algumas pessoas tentam copiar, sem conhecer profundamente o que estão fazendo.
 
A segunda Era foi chamada de Período Osiriano, de culto ao sol, foi o período patriarcal, onde o homem passa a ser o centro da sociedade. Este período se caracterizava pela construção de grandes templos dedicado ao Sol, ao Pai, ao deus macho... As construções representavam que a divindade estava dentro do ser humano, mas que este ser humano não era a divindade. Apesar da maioria dos templos terem dimensões do corpo humano, representando que o Espírito divino habitava o ser humano, mas este humano, bestial como sempre foi não podia e nem tinha como ser a divindade.
 
Neste período histórico temos a evolução da magia como a transformadora da natureza. A magia tinha de fazer manifestações materiais. O ser humano passa a dominar a natureza, passa a querer conhecer a divindade na natureza, daí que da magia surgem todas as ciências que conhecemos até os dias atuais.
 
Chegamos agora, então no Aeon de Hórus, o Filho, o andrógino. O Novo Aeon se caracteriza pelo conceito de que a divindade está dentro do ser humano e que o ser humano por isso mesmo é a própria divindade encarnada. “Não existe deus senão o homem.” Esta máxima do Liber AL vel Legis tenta explicar que o máximo que conseguiremos saber o que é ser divino é conhecermos profundamente a nós mesmos e este é um processo de grandes riscos.
 
O Aeon do Filho se caracteriza pela união da magia com as suas filhas, as ciências. É um retorno aos princípios humanos, ao respeito à natureza, porque agora conhecemos muitos dos seus mistérios e nos identificamos com estes mistérios. Não precisamos utilizar nem a feitiçaria e nem a magia para domesticar ou dominar, mas utilizamos a nova Magia(k) para nos integrarmos com a natureza do qual somos uma parte essencial.
 
As consequências desta atual Era, são imprevisíveis. Estamos apenas no seu início, mas já podemos ter uma pequena noção do que irá desenrolar. O movimento hippie na década de sessenta do último século foi a primeira grande manifestação visível do Novo Aeon. A androginia, por exemplo, que é algo visível nas novas gerações; a busca por um planeta e um sistema de vida mais saudável é um outro exemplo. Com a morte de toda noção anterior sobre deus, o ser humano olha ao seu redor e se vê “sozinho” no Universo, mas devemos compreender que nós só podemos contar com aquele outro ser humano que está ao nosso lado.
 
A Era é regida por Aquário e Leão, sem entrarmos em Astrologia, direi apenas que Aquário representa os iguais vivendo lado a lado e que por causa do Leão, não perdemos a nossa individualidade. Na minha comunidade não sou um número e muito menos uma estatística, sou respeitado pelo meu nome e por aquilo que sou. Vivo ao lado dos meus iguais e não em um meio estranho à minha natureza, pois como dizia William Blake: “A mesma lei para o leão e o touro é opressão”. Vivo ao lado de quem quero viver e sem me anular como individualidade por causa disso.
 
Desde o início dos tempos a humanidade busca respostas na metafísica para a existência. Seria thelema, assim como outras religiões e filosofias, mais uma tentativa de encontrar respostas?
Não. As respostas já foram encontradas, se praticarmos verdadeiramente o taoísmo, o hinduísmo ou o budismo, por exemplo, teremos a solução para as três perguntas básicas que sempre impulsionaram a raça humana: de onde vim? Quem sou? Para onde vou?
 
Devemos entender que Thelema trás em sua essência o resumo de todas as outras religiões, devido ao fato de ser a última religião revelada. Ela trás a essência do Tao, do Budismo, do Hinduísmo, do Zoroatrismo, dos cultos de feitiçaria, dos cultos egípcios e sumerianos, dos cultos drávicos, etc., etc. Mas na verdade ela revela um outro método para uma outra categoria de Iniciados. Até o advento de Thelema, nós utilizávamos de métodos de outros Iniciados que pouco tinham haver com a nossa natureza.
 
Por exemplo, no que se refere a sexualidade: no taoísmo, eles dizem: “feche as portas do corpo e transcenda tudo pacificamente”; no hinduísmo, eles dizem: “controle as portas do corpo e elas serão esquecidas”; mas eu como um thelemita, digo: “conheça e use as portas do teu corpo e terás domínio sobre elas”. A questão é como se interpreta e se pratica sobre o mesmo assunto. O objetivo final é sempre o mesmo, ter o domínio sobre as portas do corpo.
 
O que poderia dizer a respeito da associação de Crowley ao Satanismo. Mito, folclore, ou a associação tem algum fundo de verdade? A Besta 666, o pior homem do mundo, Mago Negro. O que tais nomes significam para o senhor?
Crowley nunca esteve envolvido com satanismo, até mesmo porque ele nunca acreditou em deus da maneira como os cristãos e judeus acreditam. Os demônios são parte de nós mesmos, que teem de serem evocados para que possamos conhecê-los e nos apaziguar com eles. Para se ter uma idéia, que pode ajudar nesta questão, o diabo na Idade Média é o mesmo que a psicologia e a psiquiatria chamam de Ego. Se o objetivo da Iniciação é dominarmos o Ego, então precisamos conhecê-lo para dominarmos.
 
O Nome Mágico mais importante assumido por Crowley foi Mestre To Mega Therion 666, Nome Mágico assumido por ele para ser o Profeta do Novo Aeon e que quer dizer: A Grande Besta 666 ou O Grande Filho do Sol Oculto. Ora, todos nós somos bestas comparados ao Sagrado Anjo Guardião, que para muitos seria como deus ou como o próprio Cristo. O Crowley brinca com a nossa imaginação, ele não queria qualquer um ao lado dele. Ele queria os melhores da raça humana, porque são estes que fazem a evolução do mundo. Muitos dos títulos pejorativos que os homens deram a ele, ele se utilizava para selecionar os seus alunos, mas com certeza ele nunca foi um mago negro, senão nunca teria deixado obras tão importantes para a humanidade. Mestre Therion está colocado entre os sete maiores Mestres que a humanidade já conheceu e ninguém diz, por exemplo, que Mestre Lao Tsu é “o pior homem do mundo”.
 
Crowley se sentia muitas vezes um perfeito idiota, um bobo, ele se sentia sozinho perante a enorme tarefa que ele tinha pela frente. Como uma besta, ele era conduzido pelo seu Anjo Guardião (e por alguns outros Mestres Ocultos, também) na realização da sua Verdadeira Vontade, que não era nem mais e nem menos do que o estabelecimento de uma Nova Época para a raça humana.
 
O que acha da influência de Aleister em obras de autores consagrados como Aldous Huxley? Nas artes, na música (Jimmy Page, Beatles, Raul Seixas, etc)? A influência exercida por Crowley vem da pessoa que ele foi ou da filosofia thelemica?
Claro que a parte mais visível é o próprio Crowley, mas para quem segue Thelema como norte de vida, o Crowley é apenas mais um Irmão que veio e que fez o que tinha de fazer. O importante é o que está por detrás da Lei. Em grande parte, o culto ao Crowley se deve pela noção “superficial” que as pessoas teem da personalidade do Crowley, um homem envolvido com drogas, sexo e magia. Alguém que pregava a Liberdade e que fazia uso “indiscriminado” das drogas e do sexo, mas esta é apenas uma visão mitificada e as pessoas adoram mitos.
 
No entanto, sabemos que é Thelema que influencia como dito mais acima, as artes, a sociedade, pensamentos filosóficos, etc., por mais que não se conheça sobre Thelema. Não podemos negar que todo o planeta está sobre a vibração da essência apregoada por Thelema e isto é um fato.
 
O Crowley pode ser cult, mas Thelema é a Liberdade, o Amor, a Vida e a Luz por detrás de tudo.
 
Existe alguma diferença no uso dos ensinamentos de Crowley nos movimentos feitos por Led Zeppelin, Beatles e no que foi feito por Raul Seixas?

Eles apenas esbarraram como não poderia ser diferente, na superficialidade dos ensinamentos do Crowley. No lado exotérico de Thelema.
 
Nem Led Zeppelin e nem os Beatles fizeram qualquer movimento em Thelema. Raul Seixas, sim, estava mais engajado pela sua aproximação com o Sr. Marcelo Ramos Motta e com o Sr. Euclydes Lacerda de Almeida. Apesar de ter sido um dos que mais propagou abertamente a Lei de Thelema, mesmo assim apenas resvalou no que é verdadeiramente Thelema, porque nunca foi um Iniciado propriamente dito.
 
Jovens gostam de rebeldia e Thelema é perfeita para os jovens rebeldes, por falar em liberdade extrema e em sexo livre. Só que liberdade gera responsabilidade, gera consciência nos atos.
 
Paulo Coelho e Raul Seixas ficaram famosos através de thelema ou usaram sua fama para divulgarem a filosofia de Crowley?
Sim. Com certeza as duas coisas aconteceram.
 
Paulo Coelho usou até quando lhe foi conveniente, se bem que ainda se utiliza do pensamento thelêmico dentro de uma roupagem vendável e cristã. Raul Seixas realmente era mais sério e tentou divulgar e expandir através da Sociedade Alternativa que seria uma comunidade no estilo hippie tendo por detrás a Sociedade Novo Aeon como uma organização mágica thelêmica, baseada no sistema da O.T.O. (Ordo Templi Orientis, uma ordem de estilo maçônica da qual Crowley foi um dos líderes).
 
Como o senhor vê a influência de Crowley na humanidade?
Bem, se não tivesse sido o Crowley, teria sido um outro ocidental qualquer. Mas o Crowley foi essencial, pelo tipo de homem que ele era. Um homem de extrema inteligência, coragem e muito além do seu tempo a nível comportamental. A Inglaterra era o centro do mundo, de onde novas idéias e tecnologias surgiam. Como se disse uma vez no século XIX: a Inglaterra era o Yod do mundo. Isto quer dizer que ela era o fogo que iluminava as mentes...
 
Devemos compreender que quando ele viveu, tinha ao seu lado uma gama de gênios em todas as áreas humanas poucas vezes visto na história humana. Tínhamos Hubble na astrofísica, Einstein na física; Poicaré na matemática; Chaplin na nova arte que era o cinema; Isadora Duncan na nova dança moderna; Nobel e um russo que agora me falha a memória, na química; Fernando Pessoa na poesia; Artaud no teatro; pintores diversos que revolucionaram e tantos outros que a memória se recusa a lembrar.
 
O Crowley é de extrema importância pela sua vasta obra que engloba diversos assuntos. Ele resgatou cultos esquecidos pela humanidade ocidental, tentou aproximar religião e ciência, nos deu um método científico para as práticas espirituais, o que nos leva a testar e a não aceitar qualquer experiência mística que não tenha uma comprovação cabível. Nos tirou do misticismo e nos deu a verdadeira magia, que ele escrevia com a letra K (Magick) para diferenciar da magia de manifestação e de necromântica medieval. Ele não queria que nós seguíssemos seus passos, mas que nós fizéssemos os nossos, por isso ele nunca se colocou como guru e brincava com aqueles que o viam como tal.
 
Talvez, em minha opinião, o seu grande mérito foi nunca ter uma postura de homem santo, por mais que ele fosse. Ele se colocava como um homem comum, por mais que ele fosse Mestre. Ele era a antítese do que se pode imaginar de um Mestre ou de um Iluminado. Assim ele nos ensinou que se pode atingir os mais altos cumes da Iluminação, da Iniciação e continuar sendo um homem com desejos comuns e necessidades comuns, que essa não é a barreira, mas o que nos torna realmente Iluminados.
 
Sobre as prescrições médicas de Crowley e consequentemente, seu vício, o que acha do uso de alucinógenos em rituais?
Desde o período pré histórico que o ser humano se utiliza de alucinógenos para conseguir estados alterados de consciência e assim conversar mais demoradamente e profundamente com os espíritos. Sempre se usou drogas e todo mundo um dia já usou ou ainda irá usar.
 
As drogas em rituais são devidamente controladas e não provocam vício se o praticante estiver devidamente treinado. Eu mesmo sou um exemplo disso, nunca me viciei em qualquer tipo de droga lícita ou ilícita, muito pelo contrário me recuso a utilizá-los sem necessidade. O Crowley utilizou praticamente todas as drogas conhecidas em seu tempo e as analisou magicamente, iniciaticamente, sabendo até onde uma poderia levá-lo e até onde outra o levaria. E nos deixou uma obra muito importante para qualquer iniciado que queira explorar recantos inexplorados da mente.
 
Antes de qualquer estudante se utilizar de drogas, ele é treinado rigorosamente ao extremo. As drogas estão em uma etapa final e nunca inicial, e elas nos auxiliam na abertura de portais extremamente complexos de serem abertos normalmente. Uma pessoa senhora de sua Verdadeira Vontade não se vicia, porque não existe espaço em sua mente para tão grande prisão. A Vontade é Liberdade e Liberdade não se coaduna com escravidão, e o Liber AL vel Legis é taxativo nesta questão. As drogas e o sexo são extremamente utilizados para abertura desses portais.
 
Devemos dizer que muitas obras importantes da humanidade foram realizadas sob o efeito de algum tipo de droga. Não vou citar casos clássicos, mas posso falar de belas canções que foram feitas por músicos sob efeito direto de drogas...
 
Era comum na época utilizar cocaína para crises de asma. Apesar de nunca te-lo conhecido pessoalmente e por isso mesmo não posso afirmar categoricamente, mas acredito que pelo homem que ele era, mesmo com fraquezas e virtudes pertinentes a qualquer um, que ele tinha realmente graves crises de asma e não porque fosse definitivamente viciado em cocaína.
 
Uma coisa curiosa que acontece quando se abrem portais normalmente fechados ao ser humano e como a maioria do processo de entrada nesses portais é através da respiração, uma parte dos Iniciados desenvolvem problemas no sistema respiratório que com o tempo tende a se agravar, eu mesmo possuo períodos críticos em que tenho grandes dificuldades em respirar. Crowley excedeu porque esta é a nossa meta e eu poderia citar alguns outros que também tiveram problema respiratório e que nunca se recuperaram como Jacob Boehme, Adam Weinshaut, Allan Bennett e até o próprio Elifas Levy.
 
Maçonaria, Rosa Cruz, Illuminati. A A.’.A.’. também se tornou uma ordem “pop”? Ou ainda continua oculta?

Hoje em dia tudo se torna pop. Não vou falar aqui do que sei sobre as outras organizações, prefiro me ater à Santíssima Fraternidade da A.’.A.’. Percebo que as pessoas acham que a A.’.A.’. é apenas mais um ordem, uma organização como outra qualquer: que se entra e que se sai ao bel prazer. Estão enganados!
 
Ela é uma Fraternidade oculta porque Ela é totalmente espiritual no conceito mais estrito da palavra. Não se pode tentar explicar para quem não a conhece por dentro como Ela funciona de verdade. Não existem palavras para expressar a Sua grandeza. Ela é composta por três grandes Escolas de Iniciação – a Escola Amarela representada pelo Taoísmo; a Escola Negra representada basicamente pelo Budismo, Hinduísmo, Jainismo...; e a Escola Branca representada por Thelema e por algumas escolas tântricas da “mão esquerda” – que teem como objetivo primal a de zelar pela evolução espiritual do nosso planeta. Sem interferir demasiadamente nas escolhas humanas, mas se manifestando toda vez que se torna necessário dar novos rumos, um desses períodos foi visto durante o século XVI quando dos Manifestos Rosa Cruzes; antes, temos os Cavaleiros da Ordem do Templo de Cristo de Jerusalém, etc.
 
Sim. Ela é uma Fraternidade oculta! Para se ter uma idéia cada Escola é dividida em três grandes Colégios e só se é Membro da Santíssima Fraternidade da A.’.A.’. aquela mulher ou homem que atingir o Colégio mais secreto da sua Escola.
Não somos nós quem escolhe fazer parte Dela, é Ela quem nos convida a fazer parte.
 
Ao longo da história humana Ela se manifestou por diversos nomes, como os acima citados, mas nunca nenhum homem ou mulher, Membro da Fraternidade, desvelaria o seu verdadeiro Nome. Conhecer o Nome é conhecer a Essência.

Entrevista realizada por
Claudia Araújo com Sérgio Bronze
em 2010 e.v.

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