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Entrevista sobre Thelema – parte II

Sempre quando leio sobre Thelema, fico com a impressão de existe algo ainda mais profundo e que escapa ao “olhar” desavisado. Estaria certo ou isto é só uma sensação? Thelema tem mais coisa por detrás do que o “Faze o que tu queres...”?

Não é apenas uma impressão. Existe muita coisa por detrás de Thelema, mas seria aqui impossível falarmos sobre ela, por ser uma questão delicada e que eu não gosto muito de comentar. Não estou querendo esconder nada de você, mas, por exemplo, falar sobre contatos extra nossa mundo, pode remeter à conceitos comumente mitificados.

Este seu cuidado também está relacionado com a sexualidade?

Não necessariamente. Teorias não levam o estudante a nenhuma realização e nem experiências baseadas em teorias. Na questão da sexualidade é necessário já ser mestre em algumas categorias do yoga, por exemplo, o que a grande maioria ainda nem começou a realizar.

As pessoas no Brasil teem falando muito sobre linhagens mágicas. Fazer parte de uma linhagem é realmente importante?

Realmente eu não acredito na validade de “linhagens mágicas”. Se fosse assim, por exemplo, todos os alunos do Crowley teriam sido grandes iniciados e a história nos prova o contrário. Acredito que você pode começar sem qualquer “linhagem” e ao longo dos anos ir se vinculando a uma. É a sua perseverança, dedicação e aprofundamento na Tradição que o leva a se vincular a uma “linhagem”. Na verdade, acho essa idéia de linhagem terrível, é para mim mais uma questão de vaidade e de curiosidade mórbida do que algo realmente efetivo, importante.

O Sr. pertence a qual “linhagem”?

Inquestionavelmente, a minha descende diretamente de Mestre To Mega Therion. Mas isso é tudo uma grande bobagem!

A que Tradição o Sr. se refere?

A Tradição a que Thelema se baseia. O Grant é o que melhor explicou sobre tal assunto em seus diversos livros.

Foi importante o Sr. falar disso: no início deste ano faleceu o Sr. Kenneth Grant. Sei que o Sr. o tem em grande estima, poderia falar um pouco sobre ele?

Não tenho muito o que falar dele. Nunca o conheci pessoalmente, o máximo que tivemos foram correspondências. Nosso contato se iniciou na década de noventa do século passado, quando o Instituto Aleister Crowley editou em português o Magical Revival. Cartas foram trocadas ao longo desses anos e o que posso dizer é que ele é a pessoa mais importante em Thelema desde o Crowley. Particularmente, eu o considero como o verdadeiro Filho Mágico profetizado no Livro da Lei.

Por que o Sr. diz isso?

Porque ele veio logo depois do Profeta, dando continuidade à Obra de Mestre Therion, além de explicar aquilo que este não teve como fazer. A finalidade de um Filho Mágico é dar prosseguimento ao Trabalho, mantendo-o em uma direção segura. Geralmente, os Filhos Mágicos expõe seus “Pais”: às vezes, até demais. Thelema tem pouco mais de cem anos e já podemos perceber alguma deteriorização de conceitos e de ensinamentos, mas isto é completamente normal, mas nos dias atuais não é mais aceitável.

Mas no que o Sr. se baseia para dizer que ele seria?

Me baseio no Capítulo I, nos Versículos 55 e 56 do Liber AL vel Legis. O Grant não estava nem no oriente e no ocidente, mas na própria Inglaterra e foi sem dúvida o último grande aluno a estar com ele. Mas isto é apenas a minha opinião pessoal e não passo neste momento de um terrível foco de pestilência.

O Sr. se considera o Filho Mágico do Grant, expondo-o ao mundo como aquele profetizado no Livro da Lei?

Esta é uma pergunta tão tola que nem merece resposta.

O que aconteceu com o Instituto Aleister Crowley? Ele ainda existe?

O Instituto Aleister Crowley foi idealizado visando a publicação de livros e no auxílio a grupos de estudos de Thelema. O I.A.C. está com suas atividades restritas, no presente momento.

Outro dia quando li o seu blog sobre o Tarot de Thoth ele me pareceu muito hermético para o público em geral. Qual é o seu objetivo com um blog escrito dessa maneira?

Não tenho muita a intensão de explicar ou de ensinar tarot nesse blog, para isso é que existe uma dezena de outros na internet. Minha intensão é escrever livremente sobre a minha percepção e conhecimento sobre os Arcanos, baseado em minha vivência dentro de Thelema. A grande vantagem dele sobre o Arte & Alquimia é que posso reescrevê-lo quando quiser.

No mesmo blog sobre o Tarot, o Sr. diz que o Aeon de Hórus começou em 1950 e.v., com a queda do Budismo Tibetano. Seria o Budismo Tibetano a grande religião do Aeon de Peixes e não o Cristianismo?

Bem, tecnicamente, o Cristianismo não pode ser considerado uma religião. Uma religião possui um método que leva os seus seguidores ao contato direto com a divindade, através de práticas, apoiadas em uma filosofia verdadeira. Incrivelmente, isto não acontece com o Cristianismo; e ele está muito mais próximo de uma seita do que de uma religião. Não temos como comparar o Cristianismo com o Islamismo, Taoísmo, Hinduísmo, Zoroatrismo...

...O Budismo é uma religião verdadeira, com uma filosofia construída através de uma prática. O Budismo é tão verdadeiro em seus preceitos que é de todas as religiões, no meu modo de ver, a mais racional: convincente, quero dizer. Outro dia lendo a Blavatsky, ela confirmava essa minha observação, dizia ela que o Budismo é a própria Razão.

Curiosamente, quando lemos no Liber AL que a Razão é uma mentira, podemos compreender que este nosso último Livro Sagrado vai de encontro aos conceitos considerados intocáveis do Aeon passado. Infelizmente, estou sendo foco de pestilência, mais uma vez.

Alguns thelemitas dizem que já estamos vivendo no Aeon de Maat e não mais no Aeon de Hórus, isto é certo? O filho mágico do Crowley, Frater Achad, estaria equivocado sobre este assunto? Em sua opinião, o que é o Aeon de Maat?

O Aeon de Maat é um período transitório entre o final de uma antiga Era e o início de uma nova. Em minha opinião, o período de 46 anos entre o recebimento do Livro da Lei, em 1904 e.v., até 1950 e.v., com a invasão do Tibet, demarca este pequeno Aeon de Ajustamento. Tudo o que aconteceu nesse período de tempo demonstra o fim e o início de um ciclo. O Aeon de Hórus tem a sua primeira grande manifestação nos anos sessenta do século passado, com o movimento hippie. Curiosamente, esse movimento se apoiou fortemente contra a guerra do Vietnam e contra qualquer ato que fosse violento.

E o que isso quer significar?

É meio complicado de explicar, mas basicamente que: Aquário, é regido pela guerra (conflitos), e este é o meio que os homens comuns utilizam para evoluírem; e Leão, regido pela vontade, é o meio que os Iniciados evoluem...

O Sr. já foi membro da O.T.O.?

Não. Iniciei minha trajetória em Thelema na Sociedade Novo Aeon, que seguia o sistema da O.T.O. baseado nos “conceitos” do Sr. Marcelo R. Motta e mais tarde na de Frater Aster. No entanto, dentro da S.N.A. tive acesso aos ensinamentos da O.T.O. e ao longo dos anos fui adquirindo muitos dos seus materiais e instruções mais internas. Naquele tempo ainda não tínhamos internet, como nos dias atuais, e se você quisesse ter acesso a documentos e materiais, teria de fazer parte de alguma organização ou pagar para tê-los.

O Sr. conheceu o Sr. Marcelo Motta?

Não. Quando entrei na S.N.A. em setembro de 1992 e.v. ele já havia falecido há alguns anos.

Pode falar sobre o Sr. Euclydes de Almeida?

Ficamos afastados por muitos anos, desde que a Loja Therion, da S.N.A., se desfez, mas nos seus últimos anos de vida, voltamos nos reaproximar. Era uma pessoa de quem eu gostava muito e a quem eu respeitava.

Faz parte atualmente de alguma ordem além da A.’.A.’.?

Sim.

Qual é a maior manipulação, em sua opinião, que o homem cometeu em toda a sua história?

A idéia de deus! É a ilusão da existência de deus que afasta o ser humano. Ora, se deus está do meu lado, se sou o escolhido de deus, eu não preciso de você para coisa alguma. Deus irá me prover de tudo. Só que deus não existe. Nenhuma divindade estará ao nosso lado em toda a nossa caminhada aqui e no além, além do outro. O ser humano não tem a não ser o outro ser humano para suprir suas necessidades.

Aquele a quem chamamos de Ser Espiritual não tem nada de espiritual no sentido religioso que se imagina. Nosso Sagrado Anjo Guardião não é mais espiritual do que cada um de nós. Em verdade, todos nós nos apoiamos uns nos outros, para a evolução de todos. Se cada ser humano compreender que precisa do outro e nos livrarmos dessa idéia doentia de deus e divindades, de salvação, passaremos sim a sermos uma fraternidade aqui, neste pequeno planeta.

Estamos sós e essa solidão só termina quando aceitamos o outro. Como que as pessoas querem ter contatos com seres de outras esferas, tão diferentes de nós, se elas não conseguem sequer aceitar outro ser humano e não tão diferente de nós?

O que fez o Sr. a optar por Thelema? Quando conheceu?

Eu comecei minha trajetória com o Budismo, pela escola Zen, em 1989 e.v. Com o Budismo comecei a meditar e nunca mais parei. O Budismo é ainda um sistema que conheço e que respeito profundamente. No princípio de 1991 e.v. deixei o Budismo e busquei um novo caminho, agora, pela magia, indo cair na Escola de Magia que funcionava na cidade do Rio de Janeiro. Em abril de 1991 e.v., talvez por causa das práticas de Raja Yoga, não sei, tive uma experiência que modificaria toda a minha vida dali em diante: naquele momento começou o meu Refinamento enquanto ser humano.

No entanto, foi em 1992 e.v. que li Liber OZ e este panfleto caiu sobre mim como uma pedra, definitiva. Percebi que tudo que estava fazendo estava equivocado. Procurei um conhecido da Escola e ele me deu para ler as Oito Lições de Yoga escrito pelo Crowley, no Magia em Teoria e Prática, e minhas experiências e impressões [e natureza] se coadunaram com aquilo que estava tendo acesso. A péssima impressão que tinham feito do Crowley se dissipou instantaneamente.

O que li sobre a A.’.A.’. mudou minha vida e pude compreender a experiência do ano anterior, tinha encontrado o caminho de casa e foi na busca por Ela que acabei conhecendo a Sociedade Novo Aeon. Thelema me mostrou um outro Caminho, onde desrespeitar a minha Natureza é a mais pura restrição.

Mas o que está por detrás de Thelema?

Bem, já que voltamos a pergunta inicial, Thelema nos prepara para uma nova realidade, para novos encontros ditos “espirituais”. E estes encontros transformarão radicalmente a psique humana.

 

Resumo da entrevista realizada

por Urbino Costa com Sérgio Bronze

em 28 de abril de 2011 e.v.

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