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Proêmio Sobre a Criação

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Houve um tempo em que não existia nem céu, nem terra e nada era senão o vazio – também chamado de águas primevas –, sem limites, a mais densa escuridão. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de Nut, algo sem tempo e nem espaço, nem profundidade ou altura, e sua duração superaria qualquer contagem de tempo ou qualquer coisa que possa ser concebida. Apesar de ser vazio, ali existia o cerne de todas as coisas que mais tarde, vieram a existir e que ainda virá existir neste mundo ou neste universo e em todos os outros mundos e universos. Este estado de não manifestação era algo próximo ao Amor, mas não se prendam no que acreditam que possa ser isto, pois está muito além de qualquer compreensão. Nut dormia em seu Amor, mergulhada em si mesma, completa em si mesma.

 

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Por fim, seu Amor gerou um despertar de sua apatia e ela sentiu Vontade de manifestar este Amor. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de Nu, e ela que era toda feminina em essência, se contorceu em espasmos de Amor e se tornou masculino em essência. Seu movimento neste espasmo fez Nu ejacular e assim tudo passou a existir: o tempo e o espaço, as alturas e as profundidades do mundo e do universo. Desse espasmo um universo surgiu após o outro e uma Palavra foi pronunciada até que os seus últimos espasmos ocorressem. E da última gota de sua ejaculação, ao cair sobre as demais que agora haviam formado o oceano do universo, surgiu a Consciência.

 

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Existe, porém um momento entre o nada e o tudo, entre o vazio e a manifestação, um instante zero, entre o menos um e o mais um. Para este Instante ou ponto de mudança que, nada mais é do que um Equilíbrio entre Amor e Vontade, a consciência do homem deu o nome de Maat. Um Instante de suavidade entre morte e espasmo: isto mais tarde seria conhecido por diversos nomes místicos em diversos lugares, os pensadores da Hélade o chamaram de αγάπη.

Da última gota de onde surgiu a Consciência de todas as coisas, surge a primeira manifestação daquilo que um dia viria a ser a alma humana. Para esta condição a consciência do homem deu o nome Hoor-paar-kraat (depois de Amen-Ra). O Silêncio daquilo que contemplou os primeiros momentos da Criação, pois não existe outra Vontade além da Palavra de Nu, o espírito que envolveu tudo depois da criação. Este Silêncio está envolvido por um ovo e assim ele permaneceu e deverá permanecer, brilhando no interior de todas as estrelas. E cada estrela é composta de uma parte desta Palavra, pois cada uma a compreende e a exerce de acordo com tua natureza.

Da emanação do interior deste ovo surgiu Ra, a essência do sol, dentro de cuja forma brilhante estava incluído o poder absoluto do “espírito divino”, a vida. Para esta condição a consciência do ser humano deu o nome de: o criador do mundo. E mais tardiamente surgiu o conceito de um deus criador de todas as coisas. Quando estes conceitos foram criados, junto foram construídas as mitologias para tentarem explicar aquilo para o qual não havia explicação. Sabia-se que de Um todos os outros surgiram e a isto foi dado o nome de politeísmo, por aqueles que vieram tardiamente. E nesta expansão, separação ou fragmentação constante do universo, o ser humano tentou reverter o processo e disto surge aquilo que, também, ainda mais tardiamente, foi chamado de monoteísmo.

 

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A Terra foi construída a partir de três elementos fundamentais e tudo que constitui a Natureza é tripla em essência, e isto pode ser contemplado naquela Morada dos deuses. No entanto, o universo continua se fragmentando e a Verdade que um dia podia ter sido uma, não mais foi encontrada. E quanto mais se fragmenta, mais fácil é manipular suas partes, por isso que surgiu o conceito de um opositor à criação. Quando isto ocorreu, eis que surge o conceito de bem e de mau: das luzes e das trevas. Mas como o “deus” sol lunar, adorado desde os tempos pré históricos, estava distante demais das mentes criaram-se outros mitos sendo que Set (o lado obscuro de Osíris) foi escolhido para ser o opositor de Osíris (o ser humano). Pela manipulação desta fragmentação é que Osíris, mais tarde, suplantará Ra, mas mesmo isto foi necessário. E quando isto aconteceu passou-se a ver o sol apenas como um astro menor e a Osíris como uma divindade salvadora, que livraria a humanidade de suas maselas, da sua dor, dos seus pecados e da sua suposta finitude. Assim, o que vimos ao longo do tempo foi que, uns copiaram aquilo que não compreendiam e fragmentaram ainda mais aquilo que já estava sendo perdido.

 

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Agora foi dado conhecer todas estas coisas e assim os “deuses” estão aos poucos retornando para suas moradas de direito. Ao ser humano cabe a sua própria responsabilidade pelas coisas. Aqueles que um dia eram chamados de deuses, mas simplesmente meros irmãos e irmãs, se foram e nos deixaram os fundamentos de uma ciência, uma mera ferramenta entre tantas outras para a compreensão desta fragmentação. Alguns foram aqui deixados, por livre Vontade de escolha, para velarem o sono e o sonho daqueles que olham as trevas (Infinito) e veem apenas azul (Terra) e dourado (Sol). Mas deve agora o Silêncio se abater sobre este pequeno proêmio que foi aqui deixado e escrito sem qualquer pretensão de explicar a criação.

Comentários

  1. Sérgio, acompanharei de hoje em diante seus textos.
    Obrigado por compartilhar assuntos tão relevantes...
    Grande abraço!

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  2. Muito bom!
    Me fez enchergar algo que eu não via!

    Eu estava confuso sobre a ideia de Rá ser o criador, a cosmogonia de heliopolis propõe que Rá seria quem fez com que Nuit se separar.

    Agora tudo faz sentido!

    ResponderExcluir

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